terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Pai rico, pai pobre (Robert Kiyosaki // Sharon Lechter)



         Esse livro expressa o ponto de vista de um inconformado com o sistema tradicional de ensino, que foca somente no repasse de informações, muitas delas que serão inúteis na prática cotidiana, e não se preocupa em ensinar a ver as oportunidades e tirar-lhes bom proveito. Dessa forma, o autor deseja compartilhar sua experiência, mostrando que nem sempre uma boa formação acadêmica é o essencial àqueles que desejam ser ricos no futuro.

            Robert Kiyosaki parte de sua história de vida para intitular o livro, bem como esmiuçar sua explanação. Dois pais influenciaram sua educação: um pai biológico e outro que lhe ensinou formas para alcançar riqueza. O pai biológico, a quem ele se refere como "pai instruído" valorizava o sistema tradicional de ensino e sempre incentivou seus filhos a estudarem muito para conseguirem boas notas e, no futuro, trabalharem em uma boa empresa que pagasse excelentes salários. Por outro lado, o outro pai, a quem se refere como "pai rico", ensinou a Robert e seu amigo Mike que, caso quisessem ser ricos no futuro, poderiam estudar menos, trabalhar menos e observar mais como funciona a lógica dos mercados. Intrigados com essa forma inovadora, os dois garotos iniciaram uma espécie de "curso" com o pai rico, que lhes transformaria radicalmente a forma de encararem o mundo.

            Conforme a experiência que Robert adquiriu com pai rico, as pessoas deveriam correr atrás de algo que as escolas não se preocupam em ensinar: inteligência financeira. Por isso, entende-se a criatividade para se ter mais opções, aumentando os ganhos e solucionando problemas financeiros. O grande segredo dos ricos seria o fato de que fazem com que o dinheiro trabalhe para eles, ao invés de trabalharem arduamente para ganharem o dinheiro. E para alcançar esse patamar é fundamental compreender uma lógica simples, porém substancial: a diferença entre "ativos" e "passivos". Ativos é tudo aquilo que faz com que o dinheiro entre no bolso, enquanto passivos é tudo aquilo que tira o dinheiro do bolso. A roda mestra da riqueza é fazer com que a coluna de ativos seja sempre maior do que a de passivos e, para isso, é necessário desenvolver o QI financeiro, usando o maior ativo que uma pessoa possui: a mente.

            O autor faz referência ao jogo cashflow desenvolvido por ele para que as pessoas aprendam de forma lúdica como se comportarem quando o assunto é sucesso financeiro. Segundo ele, a maioria das pessoas fica presa naquilo que ele chama de "corrida dos ratos".  Isso seria um estado financeiro no qual a coluna de ativos serve unicamente para satisfazer a coluna de passivos. Assim, as pessoas preocupam-se somente em manterem seus empregos, visando segurança, e tudo aquilo que ganham serve apenas para pagar dívidas, tributos e investimentos que não lhes dão retornos reais, além de recorrerem a empréstimos e finaciamentos que lhes consomem boa parte da renda devido aos juros exorbitantes. A superação desse estado consiste em fazer com que entrem na "pista de alta velocidade", a qual é um estado financeiro em que o dinheiro passa a trabalhar a favor das pessoas. Daí vem a diferença entre os pobres e a classe média em relação aos ricos: enquanto aqueles trabalham pelo dinheiro, estes fazem dinheiro.

            O autor dá ainda, dicas para que as pessoas possam rever suas vidas financeiras e entrarem no jogo por bons investimentos. Ressalta, contudo, que qualquer investimento traz benefícios e riscos, de forma que a aposta em algum deles deve ser precedida de conhecimento e alfabetização financeira. Longe de recomendar que todos abandonem a escola e passem a investir o tempo em meios que lhes tragam retornos financeiros, o grande mérito desse livro está em despertar as pessoas para que se projetem no futuro e comecem a buscar os meios que lhes farão alcançar suas metas.

REFERÊNCIA LITERÁRIA

Título:        Pai rico, pai pobre

Subtítulo:  o que os ricos ensinam a seus filhos sobre dinheiro

Autoria:      Robert T. Kiyosaki / Sharon L. Lechter

Editora:      Campus

Ano:           2000

Local:         Rio de Janeiro

Edição:       39ª


Gênero:      Finanças | Administração

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Cowboys & Aliens (Mitchel Rosenberg / Fred Van Lente / Andrew Foley)

            Inspirada na eterna luta de homens e alienígenas, Cowboys & Aliens é a graphic novel que inspirou a produção do filme homônimo, lançado em 2011, embora com algumas diferenças sutis.
            O espaço e tempo em que a história acontece é Arizona (EUA), em 1871. Nessa época, as lutas entre os colonizadores europeus e os índios eram uma constante, aqueles em busca da conquista territorial sob a ideia de “progresso” e esses em busca da defesa de suas próprias terras. Nesse contexto, o casal de cowboys, Zeke Jackson e Verity, juntamente com um padre, conduzem uma caravana rumo às minas de prata de Silver City. Contudo, o grupo é atacado em uma emboscada, por um selvagem grupo de índios apaches, disposto a eliminar cada membro. Uma batalha é travada e Zeke consegue escapar do tiroteio. Contudo, alguns índios o seguem e derrubam-no de seu cavalo. Era o fim, não fosse o aparecimento inesperado de um OVNI, surpreendendo a todos.
            Os alienígenas vinham com uma missão bem determinada: dominar a área dos terráqueos. Contudo, danos sofridos durante a aterrissagem fizeram com que improvisassem uma antena fabricada com os destroços de sua nave, a fim de estabelecerem uma comunicação interplanetária com a base de origem. Para Zeke, os extraterrestres eram, no mínimo, bastante evoluídos: tinham armas legais como pistolas de plasma e chicotes mágicos, suas naves eram de uma tecnologia nunca antes vista, a objetividade com que buscavam consumar a missão demonstrava bastante conhecimento do planeta Terra, eram capazes de compreender a língua humana e de se comunicarem com perfeição. Porém, os intrusos não eram nada amigáveis, dispostos a dissolverem qualquer um que lhes apresentasse no caminho.
            Frente a uma ameaça tão desconhecida e ao mesmo tempo tão ameaçadora, índios e colonizadores tinham somente uma saída nada amigável: unirem forças em prol do combate aos alienígenas e, assim, salvarem o mundo da ameaça que vinha do espaço. Nesse intuito, uma suposta alienígena se apresentaria a eles como uma agente subversiva que não possuía interesse em ver a destruição da espécie humana, pondo-se ao seu lado na empreitada de contra-ataque.
            Fisicamente, essa edição da Galera Record possui uma apresentação de primeira: capa dura, folhas de excelente qualidade, diagramação e cores vibrantes, leitura fluente, etc.. No entanto, a história apresenta uma temática que exige um desenvolvimento qualitativo e um final bombástico. É certo que uma graphic novel, para obter sucesso, deve possuir diálogos objetivos, complementados pelas imagens que devem também narrar a história. Esse é um aspecto falho de Cowboys & Aliens o que faz a história pareça pouco interessante pelo fato de ser muito simplista. Algumas passagens poderiam ter sido mais bem desenvolvidas e despertarem sentimentos mais francos nos personagens. Por exemplo, um cowboy do Velho Oeste se apaixonaria facilmente por uma alienígena subversiva, sem que isso lhe despertasse certa desconfiança em um primeiro momento? O episódio final deixa uma brecha para a continuação em um segundo volume. Contudo, a falta de expressividade desse primeiro nos quesitos apontados acima compromete a expectativa de uma continuação mais surpreendente.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:         Cowboys & Aliens
Autoria:       Mitchel Rosenberg / Fred Van Lente / Andrew Foley
Editora:       Galera Record
Ano:             2011
Local:           Rio de Janeiro
Edição:         1ª
Gênero:        Ficção científica

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 2011:


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Transforme seu medo: impulsos espirituais (Anselm Grün)


            Na existência humana é comum lidar com situações as quais causam espanto e até mesmo temor, fazendo com que a pessoa se retraia diante da vida ou se feche em determinadas zonas de conforto e segurança. Muitas vezes, o objeto de que se tem medo pode ser facilmente nomeado mas, em praticamente todas as situações, as raízes do medo estão em forças internas as quais não são facilmente percebidas de imediato. Esse pequeno livro de Anselm Grün dedica-se à reflexão sobre diversas situações amedrontadoras, comuns à maioria das pessoas, iluminando-as porém com um olhar espiritual cristão.
            O medo é algo inerente à existência humana. Diante dele, pode-se viver oprimido ou aproveitar a ocasião para aprender um pouco mais sobre o próprio existir. A primeira atitude é assumir os medos que se tem e encará-los como uma oportunidade de descobrir a verdade da própria alma. Trata-se, portanto, de descobrir para onde o medo me quer levar e como ele me faz reagir. Visto dessa ótica, o medo nos abre a uma dimensão a qual nunca conheceríamos caso não o sentíssemos.
            Contudo, Anselm Grün propõe um novo reforço para aprendermos a lidar com essa temática. Após abordagens sobre diversos pontos de vista diferentes (medo do desconhecido, medo dos relacionamentos, medo do futuro, medo de Deus, medo de si mesmo, medo da passagem do tempo, medo de doenças e tragédias, etc.) ou autor traz exemplos vivenciados por Jesus Cristo em sua permanência entre o povo judeu. Jesus não baniu o medo simplesmente, mas ensinava seus interlocutores a vivenciá-lo na esfera da confiança em algo maior. Poucas vezes Jesus afugentou o medo daqueles que encontrava, mas sempre os ensinava a serem maiores do que seus próprios temores. Desta forma, queria que as pessoas se convertessem em seres humanos corajosos e capazes de lidarem com as constantes trevas que a vida ocasiona. Somente adquirindo essa fortaleza interior, o ser humano podia reconhecer o Deus que nele habitava e que lhe garantia uma existência segura e tranquila. Consequentemente, pelo fato de aguçar a vigilância e a percepção, o medo torna-se ocasião favorável para perceber a presença divina, já que expõe o amedrontado às suas maiores fragilidades que ameaçam sua vida e sua felicidade.
            Dentre os medos daquilo que é desconhecido, a morte é o maior. Ele faz questionar toda a nossa vida e o modo como estamos vivendo, bem como nos abre à reflexão de qual o sentido em vivê-la se um dia tudo se acabará, o que deixaremos para quem e etc. Para Grün, a melhor maneira de combater esse medo é vivendo-o com um sentimento de gratidão e desprendimento diante da vida. Somente assim a vida pode transcorrer livremente, não como uma prisão agradável mesmo que necessária e sim como abertura a um horizonte de transformação e significado maior.
            Transforme seu medo é um livro que, mais do que lido, deve ser rezado e refletido. Talvez os não crentes ou não adeptos à fé cristã possam saltar algumas partes aproveitando somente daquelas que dizem respeito às suas questões mais imediatas. Mesmo assim, sua mensagem não se perde e é útil a todos. Trata-se de uma obra que extravasa os limites puramente literários e alcança toda sua eficácia em um instrumento terapêutico e sintetizador.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:         Transforme seu Medo
Subtítulo:    impulsos espirituais
Autoria:       Anselm Grün
Editora:       Vozes
Ano:             2008
Local:           Petrópolis
Gênero:       Espiritualidade

domingo, 18 de janeiro de 2015

12 Anos de Escravidão (Solomon Northup)



Esse é um livro de memórias reais em que o autor relata a experiência trágica que o converteu de um homem livre em um escravo por doze anos, na metade do século XIX. Foi o texto que inspirou a adaptação para o cinema lançada em 2014, vencedora de 3 Oscars.
            Solomon Northup era um homem negro que levava sua vida normalmente junto à mulher e os filhos em Saratoga Springs (Nova Iorque). Dentre seus talentos estava o de ser um excelente violinista. Certo dia, deparou-se com uma dupla de homens que lhe ofereceram uma oportunidade única e imperdível de trabalho. Dividido entre a comunicação com a família e a impossibilidade de perder aquela oferta, Solomon decide partir junto com os homens, ainda mais porque os homens providenciaram toda a documentação que lhe assegurava a condição de homem livre. Tragicamente, tratava-se de uma farsa, e os documentos falsos acabaram por torná-lo a mais nova vítima do regime escravista reinante àquela época nos Estados Unidos.
            Solomon foi embarcado a bordo de um navio com outros negros – homens, mulheres e crianças – na mesma condição. Era o início de um pesadelo que minava todos os seus sonhos de gozar os benefícios de uma vida livre. Qualquer tentativa de provar sua liberdade era logo punida com açoites e castigos atrozes, tornando a submissão um alívio menos penoso, embora não mais aceitável. Logo, logo Solomon entenderia que, na condição de negro escravo, não lhe restava qualquer palavra senão àquelas suficientes ao cumprimento da vontade de seu senhor.
            Durante sua escravidão nas fazendas de Bayou Boeuf, Solomon foi vendido a vários senhores. Em certo momento foi apelidado de Platt, o que tornou seu verdadeiro nome desconhecido naquela sociedade escravocrata. Suas habilidades como músico, a disciplina de sua conduta e produtividade no desempenho dos trabalhos tornavam-no um escravo de valor considerável. Seus relatos reconhecem o Sr. William Ford como tendo sido um patrão bom. Contudo, Solomon teve atritos com Tibeats, que quase o levaram a ser castigado até a morte. Mas foi nas fazendas de Edwin Epps que Solomon passou a maior parte dos seus anos como escravo, assim como as mais terríveis experiências.
            As terras de Epps ficavam em Marksville (Louisiana), mais precisamente na Paróquia de Avoyelles. A população negra era submetida a um tratamento semelhante em todas as fazendas escravistas dos EUA. Cada escravo possuía como bens a roupa do corpo, geralmente feita de algodão cru, uma cabaça e uma saca de algodão que eram também seus utensílios nas lavouras de algodão e cana-de-açúcar. Aqueles que faziam algum trabalho extra ou que se destacavam de alguma forma podiam receber roupas, alguns adornos (para as mulheres), algum outro objeto e até mesmo alguns trocados. Seu alimento era basicamente uma ração feita de milho triturado e toucinho, sendo que as condições deste nem sempre eram apropriadas ao consumo. Apesar de não ser uma prática comum, não havia restrição de que os escravos se casassem. Caso algum escravo necessitasse visitar parentes em outra fazenda próxima, era-lhe concedido um salvo-conduto. Desse modo, ainda que fossem pegos no caminho por algum feitor (funcionários extremamente violentos, contratados pelos senhores, responsáveis por punir escravos fugitivos), não lhes caberia nenhum castigo. Os escravos trabalhavam forçadamente nas lavouras o dia inteiro, fizesse sol ou chuva. Aqueles que não atingissem uma produtividade mínima eram castigados severamente ao fim do dia, indistintamente se homens ou mulheres. O único dia em que era-lhes concedido descanso era no Natal, quando festejavam e dançavam alegremente.
            Um negro feito escravo dificilmente retomaria sua liberdade novamente. Contudo, Solomon usou sua perspicácia para alcançar seu objetivo. Em uma primeira tentativa de enviar uma carta aos seus conhecidos, o mensageiro o traiu e, por pouco escapou da ira de Epps. Na segunda, um carpinteiro dotado de ideias antiescravistas foi fundamental na libertação de Solomon em 1853. Era Bass, que topou arriscar a própria segurança em nome da liberdade daquele cativo duramente injustiçado.
            A narrativa do autor possui um estilo essencialmente descritivo dos fatos, deixando que o próprio leitor absorva e reprove os abusos cometidos pelos senhores de escravos. Os relatos são comoventes e dramáticos, principalmente aqueles que narram os castigos aplicados aos negros, sempre injustificados por tamanha covardia e violência, de forma que, quando as feridas não matavam o escravo, imprimiam em sua pele cicatrizes e sequelas terríveis. Trata-se de uma obra bastante atual para que os temas do racismo e da discriminação racial sejam novamente colocados em debate, a fim de que tais atrocidades jamais venham a ser cometidas novamente.


REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:        12 Anos de Escravidão
Autoria:      Solomon Northup
Editora:      Penguin: Companhia das Letras
Ano:           2014
Local:         São Paulo
Gênero:      Escravidão | Autobiografia

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 2013: