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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Informação ao Crucificado (Carlos Heitor Cony)

Substanciando uma obra marcadamente autobiográfica, o autor lança mão do personagem João Falcão para abordar a questão do progressivo desencanto pela vida religiosa, consequência de um início sem raízes fideístas, mas tão somente estéticas.
João Falcão é um seminarista que está bem próximo da tonsura, ou seja, o ritual onde lhe seria conferido o primeiro grau da ordem. Em um livro diário verde, registra as principais memórias que contam sua crise vocacional, durante os anos de 1944 e 1945. O ingresso do jovem João no seminário havia se dado essencialmente porque achava bonito o “ser padre”, de forma que o desejo de consagrar sua vida a serviço de Deus e da Igreja não era o fator elementar a impulsionar sua vocação. Cumpridor de uma rotina repleta de estudos nas mais diversas áreas da filosofia e teologia, a ele encantavam os livros literários tidos como proibidos aos alunos, uma vez que poderiam fazê-los questionarem aspectos fundamentais de sua vocação, em um momento em que não estavam preparados para amadurecerem respostas para as mesmas. Essa desobediência já era um fator para que tivesse alguns atritos com seus superiores.
Na narrativa dos dias vivenciados pelo seminarista, vemos suas dúvidas vocacionais se entrelaçando em meio aos fatos corriqueiros do cotidiano. Estudos, rezas, celebrações, atividades recreativas, férias ocasionais são alguns desses momentos nos quais o autor informa ao leitor sobre seu calvário, no qual sua própria vocação estava em coma, conduzida sempre mais para a inevitável extinção. Em uma época em que a vocação sacerdotal era sinal de status e um motivo de orgulho para os familiares do vocacionado, João se angustia perante o choque que seus pais levariam ao saber que o filho estava deixando uma carreira promissora para entregar-se às aventuras decepcionantes do mundo. Contudo, ele opta pelo caminho da coerência, já que a imanência para com o divino era algo essencial que lhe faltava para continuar galgando os passos do sacerdócio.
A carga de responsabilidade para com a própria vocação que o livro transmite reflete a forma séria e exigente com que a sociedade e a igreja tratavam a preparação sacerdotal naquele tempo. Nas memórias do seminarista, vemos a formação muito mais como um peso a se carregar, ainda que a duras penas, do que uma fase de discernimento necessária para que o jovem seja capaz de consagrar sua vida espontaneamente à causa abraçada. O ambiente de erudição do seminário não deixa espaço para o debate das próprias crenças, nem para o amadurecimento das dúvidas vocacionais. O episódio cômico em que alguns seminaristas veem a filha do porteiro nua em um jardim é tratado como se os olhos dos mesmos houvessem levado-os a cometerem um crime contra a castidade, requerendo uma expiação severa.
Por meio dessa confissão pública, o autor concretiza uma crítica ao rigorismo daquele tempo, o que fez com que os ambientes de formação religiosa fossem pintados como locais à parte do mundo, ainda que inseridos nele e o tempo todo sujeitos às suas ciladas. Outra leitura que também pode ser feita e, nesse sentido, estendida a outras áreas da vida, que não a dimensão religiosa, é o perigo de permanecer em um caminho apenas pelo fascínio estético. João Falcão era um jovem que, mesmo advertido sobre a proibição de algumas leituras, não se rendia à curiosidade pelo conhecimento. Isso não faria dele um infrator, já que sua permanência no seminário apenas por achar bonita a prática sacerdotal, constituía-se em sua maior traição. Contudo, a insistência nesse caminho aumentava-lhe cada vez mais a angústia, de forma que, ao informar ao crucificado sobre sua crise de fé, necessitava também dar uma resposta a si mesmo e àqueles que nele depositavam suas esperanças.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:    Informação ao Crucificado
Autoria:  Carlos Heitor Cony
Editora:  Companhia das Letras
Ano:       1999
Local:     São Paulo
Edição:   5ª
Gênero:  Autobiografia | Espiritualidade | Drama

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O Profeta Jeremias, boca de Deus, boca do Povo: uma introdução à leitura do livro do profeta Jeremias (Carlos Mesters)

profeta jeremias, o - boca de deus, boca do povo          Valendo-se de seu alto conhecimento bíblico, mais uma vez o Frei Carlos Mesters oferece uma chave de leitura para um importante livro da Bíblia: o Profeta Jeremias.
          O profeta Jeremias nasceu em Anatot, por volta do ano 645 a.C. e trabalhou como agricultor até receber o chamado em 627. De sua paixão por Deus e pelo povo, brotava o objetivo principal de sua ação profética: levar o povo de volta à observância da Aliança. O contexto no qual vivia era marcado pela corrupção política, gerada pela trama histórica do reinado de Manasses e também pela corrupção religiosa, uma vez que a religião era usada para legitimar os erros dos líderes religiosos. Em virtude disso, o povo prestava culto aos deuses estrangeiros.
          Assim como Jeremias, outros grupos visavam igualmente a reforma social e religiosa, como: 1) os recabitas, que visavam voltar aos tempos do êxodo, pela observância estrita daqueles costumes; 2) os refugiados, cuja proposta era voltar à observância da Aliança feita com Moisés; 3) os discípulos de Isaías (anawin), que acreditavam ser do meio dos pobres que nasceria um futuro melhor para o povo e cujo principal defensor foi o profeta Sofonias.
          No tempo do rei Josias (640-609), a partir de seu contato com o Livro da Lei (Deuteronômio), iniciou uma série de reformas em todas as esferas da sociedade. Jeremias concordava com o rei, no que dizia respeito à união do povo de Israel e de Judá, observância da Aliança e em ser contra qualquer aliança com o Egito. No entanto, discordava quanto à centralização do culto em Jerusalém. A reforma que Jeremias propunha, dizia que não bastava o culto, mas era necessário restabelecer também o direito e a justiça, de modo que ele visava um processo de conversão do próprio coração.
          Com a morte de Josias e o reinado de Joaquim (609-597) a situação do povo voltou a piorar devido ao cerco de Judá feito por Nabucodonosor em 598. Joaquim usou o culto a Deus para legitimar as próprias injustiças, levando o povo a desacreditar no relacionamento dentro do próprio clã, desanimar as lideranças, esquecer da Aliança e enfrentar um duro período de fome e seca. Simbolizando sua vocação, Jeremias fazia uso de algumas ações simbólicas como não casar, não ir a festas e nem a velórios. Apesar de seu sofrimento constante proveniente da perseguição, rejeição e abandono até mesmo pelos próprios familiares, Jeremias tinha alguns amigos com quem podia contar, como os recabitas, discípulos de Isaías e os “pobres de Javé”(anawin). A fonte de sua coragem vinha de seu relacionamento com Deus, da consciência da missão, dos amigos e da nova forma de encarar a vida e os fatos, à luz da tradição bíblica e dos profetas.
          Durante o reinado de Sedecias (597-586), após a 1ª deportação para a Babilônia, as palavras dos profetas muitas vezes eram contrárias umas às outras no que diz respeito a estarem a favor ou contra Nabucodonosor. A parábola dos dois cestos de figos (4, 1 – 10) ilustrava bem a situação: os figos podres eram os que consideravam a ideologia dominante da monarquia como o período ideal da história do povo de Deus e viam o exílio como um simples “acidente de percurso”; os figos bons eram Jeremias e os grupos que pregavam um “futuro e uma esperança”, os quais acreditavam que o exílio era parte do plano de Deus e muito dizia sobre o futuro do povo. Diante do poder da Babilônia, Jeremias pregava tanto aos que ficaram em Jerusalém quanto aos exilados que se submetessem: “Sirvam ao rei da Babilônia, para que vocês possam viver!”(27, 17). A resistência seria suicídio e sua pregação era fruto de sua visão do exílio como parte dos planos de Deus. Jeremias imaginava uma comunidade do futuro como sendo livre, alegre e servidora, onde a sabedoria seria dom de Deus e sua lei estaria no coração do povo.
          A destruição de Jerusalém por Nabucodonosor em 586, trouxe um período de calamidade para o povo. O Livro das Lamentações de Jeremias (que provavelmente não foi escrito por ele) fala da fome, miséria, terror, destruição, morte e escravidão que se apoderou da cidade: “Eu sou o homem que viu a dor de perto” (Lm 3, 1) e “Vocês todos que passam pela estrada, parem e olhem para ver se, em algum canto, existe uma dor semelhante à minha dor!”(Lm 1, 12). Apesar de todo o sofrimento, o livro conserva um certo raio de esperança: “O amor de Javé não acaba jamais e sua compaixão não tem fim. Pelo contrário, renovam-se cada manhã: como é grande tua fidelidade! Digo a mim mesmo: ‘Javé é minha herança’, por isso nele espero!” (Lm 3, 22-24). Nesse mesmo ano, se deu a 2ª deportação para o exílio. O povo levava consigo a memória da destruição, não tinha líderes, eram em sua maioria pobres e refugiados e ao contrário da primeira, contava com mais grupos que queriam a renovação e a mudança. Nesse período, Jeremias e Godolias reorganizaram-no sem a Monarquia e sem o Templo Real, escolhendo Masfa como centro. A raiva de alguns que eram contrários ocasionou o assassinato de Godolias e, diante disso, todos queriam fugir para o Egito mas Jeremias continuava a pregar a submissão ao rei da Babilônia. No entanto, o povo não aceitou e nesse contexto se deu a morte do profeta.
          Carlos Mesters apresenta a vida e vocação profética de Jeremias, de forma bastante sistematizada em seis capítulos: 1º) A história de sua vocação, do nascimento aos 18 anos (645-627); 2º) A paixão que sustentou-o em sua luta, dos 18 aos 36 aos (627-609); 3º) O sofrimento do profeta, dos 36 aos 48 anos (609-597); 4º) A difícil tarefa de interpretar a história à luz da fé, dos 48 aos 57 anos (597-588); 5º) A denúncia do mal se transforma em anúncio de esperança, dos 57 aos 59 anos (588-586); 6º) Amostra e modelo futuro do povo, dos 58 anos até a morte (587-?). Nesse trajeto, vemos uma figura sensível aos sinais de Deus em sua história e atento a sua presença na caminhada de um povo oprimido e escravizado. Uma bela integração da fé encarnada na vida e de uma vida encarnada na fé.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Profeta Jeremias, boca de Deus, boca do povo, O
Subtítulo: uma introdução à leitura do livro do Profeta Jeremias
Autoria:    Carlos Mesters
Editora:    Paulinas
Ano:         1992
Local:       São Paulo
Gênero:    Espiritualidade | Religião

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Deus e a Cabana: entendendo a presença divina no best-seller de William P. Young (Roger E. Olson)

deus e a cabana          Depois do sucesso obtido pela publicação da obra de William P. Young, Roger E. Olson, PhD e professor de teologia na George W. Truett Theological Seminary, na Baylor University (Waco – Texas), tece sua análise do tema proposto por Young. Mesmo sendo um romance de cunho exclusivamente fictício, A Cabana aborda questões muito próximas daquelas vividas por pessoas que passaram por situações semelhantes: sentimentos de perda, falta de fé, desilusão, tristeza, etc.. Sob uma ótica espiritual e religiosa, remetem à dúvida acerca da existência de Deus: se de fato ele nos ama, por que permite que crianças inocentes sejam assassinadas por maníacos, além de outras atrocidades que acontecem no mundo? Esta e outras questões são investigadas por Olson em Deus e a Cabana, à luz do próprio best-seller de William Young, da tradição bíblica e dos instrumentais da teologia.
          Apesar de lidar com aspectos teológicos como, por exemplo, a essência de Deus expressa em um único ser e três pessoas distintas que, no romance, Young materializa e identifica como Papai, Jesus e Sarayu, Roger Olson tenta deixar claro que o livro não deve ser confrontado com uma teologia nata. O propósito do autor de A Cabana era construir uma história que retratasse a presença de Deus na história dos homens e de um homem em particular: Mackenzie. Em vista disso, ele parte de um terreno mais real, que é fornecido pelo modo de entender Deus na ótica de algumas doutrinas religiosas. Isto não impede de confirmarmos muitos pontos que são abordados no romance, mas a aproximação deve ser cautelosa, já que a materialização de Deus não condiz com o ser com que os que acreditam nele relacionam.
          A análise feita por Olson vem mostrar dois planos de uma mesma realidade: a ação de Deus e a liberdade dos homens. Nesse aspecto se situa o relacionamento de um com o outro. A história de Young busca abordar o mistério do amor de Deus na procura do homem, mesmo quando não evita que ele passe por um sofrimento arrasador.
          Mesmo com uma história de vida marcada pela influência religiosa e dando mostras de que é adepto a uma religião, a análise de Olson não parte dos aspectos doutrinários de alguma igreja. Trata-se de uma visão mais holística do fenômeno da fé e não limitada por dogmas.
          Embora o autor enalteça a engenhosidade do romance de Young, ele também faz algumas críticas e discorda de alguns pontos-de-vista. Uma dessas é o fato de Young ressaltar uma fé muito individualista e nada abordar sobre a dimensão comunitária da mesma. Isto é visto por Olson, como uma falha do autor já que a ideia de que Deus é um ser de relacionamento e de comunhão, está explícita nas linhas do romance e nos diálogos de Mack com a Santíssima Trindade.
          Críticas à parte, Olson que mostrar a importância de se cultivar uma visão de Deus, não a partir de nossos sofrimentos e dores, mas a partir de seu imenso amor e sua capacidade de transformar nossas vidas. É esse o grande milagre da existência, de ter uma vida restaurada pelo perdão e pelo amor.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Deus e a Cabana
Subtítulo: entendendo a presença divina no best-seller de William P. Young
Autoria:    Roger E. Olson
Editora:    Thomas Nelson Brasil
Ano:         2009
Local:       Rio de Janeiro
Gênero:    Espiritualidade | Religião

Confira o trailer da adaptação do filme "A Cabana" para o cinema lançada em 2017:


terça-feira, 11 de abril de 2017

Meu Deus em quem confio (Jacques Loew)

meu deus em quem confio          Jacques Loew nasceu em Clermont-Ferrand (França) em 1908, filho de católicos não-praticantes. Trabalhou como estivador e foi advogado. Tendo se convertido aos 24 anos, mais tarde ingressou para a ordem dos dominicanos. Fundou a Missão Operária São Pedro e São Paulo (MOP) e a Escola da Fé.
          No cristianismo, a conversão é um fator chave para que a pessoa se reconheça em seu ser limitado e busque sua totalidade em Deus. Ela não é um processo isolado, de um único momento da vida do cristão, mas atravessa toda a sua existência, convidando-o sempre a aperfeiçoar-se em sua vivência da fé. É nesse sentido que a obra de Jacques Loew conserva o júbilo dos cinqüenta anos de seu encontro com Deus ou, em suas próprias palavras, de felicidade interior.
          Tudo começou a partir de sua estadia no sanatório em Leysin, e 1932, onde teve seus primeiros contatos com obras como A Imitação de Cristo, Confissões e o Novo Testamento. Filho de pais católicos, foi batizado e instruído nos ditames do protestantismo. Em uma Semana Santa na Cartuxa de Valsainte, sente-se profundamente tocado pela celebração dos mistérios de Cristo, especialmente pela Ceia do Senhor. A leitura de Pensamentos (Blaise Pascal) o faz refletir sobre a condição do homem no mistério de Deus. Era como se sentisse provocado a dar uma resposta que mudaria toda a sua vida: “Queres que seja sempre à custa do sangue de minha humanidade, sem que tu me dês tuas lágrimas? Cabe a mim tua conversão, não temas e reza com confiança” (p. 26). A partir daí decorreria todo um processo que culminaria em sua entrada para os dominicanos.
          A narrativa do padre Loew concilia dois pólos como parte de uma única e mesma realidade: a ciência e a fé. Os estudos e pesquisas da primeira facilitam a compreensão da segunda. Daí provém seu deslumbramento diante de um floco de neve, do ciclo reprodutivo da papoula ou do papel das abelhas na polinização. A fonte da tradição bíblica também é para ele uma história do caminho espiritual da ação de Deus na vida de homens que se abriram ao mistério. Consequentemente, isto o faz acolher e meditar nos grandes dogmas da doutrina católica como a confissão (todah), Eucaristia, Santíssima Trindade, Virgem Maria e ressurreição. São traços que o ajudam a, pouco a pouco, ir compreendendo o mistério do homem na vida de Deus e vice-versa.
          Por esta obra, padre Loew quer fazer um memorial de todo o itinerário de conversão que vivenciou. Reunindo aspectos autobiográficos e observando a própria história como espaço privilegiado de morada do divino, toda a alegria e júbilo de sua trajetória o fazem regozijar-se. A gratidão é o motivo pelo qual o autor realiza uma verdadeira profissão de fé na ternura e bondade manifestada por Deus, no decorrer de toda a sua vida. Com isso, transmite ao leitor e lhe desperta, para a sabedoria em reconhecer a presença divina na criação, no progresso humano e em sua própria jornada como peregrino neste mundo.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Meu Deus em quem Confio
Autoria: Jacques Loew
Editora: Paulinas
Ano:      1986
Local:    São Paulo
Gênero: Espiritualidade

domingo, 12 de março de 2017

O Deus Oprimido: em busca de uma espiritualidade da inserção (Benjamin González Buelta)

deus oprimido, o          Nos tempos atuais, em que o avanço do capitalismo, o declínio dos valores tradicionais, o crescente consumismo e espírito de competitividade crescem sempre mais, uma pergunta se coloca aos cristãos, especialmente aos vocacionados à vida religiosa: como se inserir em tal contexto, vivendo a partir de uma adesão radical ao reino pregado por Jesus Cristo? A crescente massa de oprimidos, sem voz e nem vez, vem como o grito de um Deus que está sendo marginalizado, excluído, colocado à parte, mostrando-se na pessoa do outro: um Deus Oprimido. A partir dessa realidade questionadora, o padre Buelta busca, à luz de seus 18 anos de experiência, convivendo com os miseráveis de Guachupita na República Dominicana, tecer uma análise de conjuntura da pastoral da Igreja, buscando os sinais da coerência de seu discurso com sua prática na opção preferencial pelos pobres.
          A pastoral entre os pobres parte do reconhecimento de que é o próprio Deus presente no mundo, que caminha com o povo na história, não como espectador, e sim como vítima dos mecanismos de morte. A partir daí, uma provocação aos religiosos: “Podemos nós entender o Evangelho, lendo-o desde nossa posição privilegiada no sistema, a partir do poder, da segurança, da instituição...?” (p. 19). A alternativa da inserção surge como um êxodo em direção aos oprimidos, na busca por encontrar o próprio Deus, que se encarnou entre os pobres, viveu como pobre e morreu pobre. Por isto, quer significar uma aceitação dos desafios contra a realidade de injustiça, dos dominadores e das ideologias. Inserir é também comungar da sabedoria, cultura e fé do povo, na busca de opções concretas que realizem o seu projeto na história. Trata-se de cultivar uma espiritualidade celebrativa, atenta às necessidades concretas, que produziriam a libertação da opressão. É ser sinal de contradição, frente ao curso da humanidade. Enfim, é um transcender de uma experiência meramente individual e narcísica de Deus, para uma experiência coletiva e libertadora, contemplando a Deus, na caminhada com seu povo. A realização concreta desse projeto leva à percepção de um reino de Deus que já está presente no mundo, pelas sementes de esperança que surgem, mas ainda não completamente, em virtude das injustiças e desigualdades entre as pessoas.
          Contemplar a Deus na história é se comprometer com a vida. Nem uma práxis que se rotiniza no ativismo exacerbado, nem uma espiritualidade que se fecha sobre si mesma, sem inquietar-se diante de quem mais sofre. A inserção é a opção por viver como o povo, na busca de implodir em seu meio a mensagem de amor e fraternidade de Jesus, na luta pela justiça.
          Destinado aos que fazem do compromisso com o oprimido o escopo da vivência radical e engajada da boa-nova do Evangelho, esta obra vem reacender essa opção fundamental. A urgência de uma pastoral coerente e eficaz é a demanda da Igreja, frente à realidade que se descortina sempre mais desafiadora. A vida religiosa é chamada a se desinstalar de seus confortos e se inserir entre os que são o alvo de seu discurso, rosto humano e oprimido de um Deus que caminha com seu povo, em Jesus Cristo.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Deus Oprimido, O
Subtítulo: em busca de uma espiritualidade da inserção
Autoria:    Benjamin Gonzáles Buelta
Editora:    CRB
Ano:         1989
Local:       Rio de Janeiro
Gênero:    Espiritualidade | Religião

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Lutar e Amar: como os homens encontram a si mesmos (Anselm Grün)

lutar e amar          Esta obra é mais um grande auxílio do renomado monge beneditino, para homens em busca de sua própria identidade. Como orientador espiritual na Recolletio-Haus, uma casa de recolhimento pertencente ao mosteiro beneditino de Münsterschwarzach, na Alemanha, Anselm Grün faz uso de sua experiência para oferecer uma ajuda às pessoas do sexo masculino.
          A partir da observação da importância de dois pólos – lutar e amar – Grün afirma haver duas identidades masculinas distintas: os homens “machões”, os quais visam ressaltar sua virilidade frente às mulheres, mas que no fundo ocultam um profundo medo e insegurança; os homens “softs”, os quais levam tão a sério a integração do lado feminino de sua alma, que esquecem o próprio ser-homem. Diante de tal quadro, quem só luta corre o risco de ser tornar duro e insensível, enquanto que quem só ama ressalta apenas seu lado terno. A proposta de Grün visa o equilíbrio desses dois pólos no mesmo projeto de vida.
          Estabelecido o escopo da questão que será desenvolvida na obra, o autor convida o leitor a fazer um caminho, passando por dezoito arquétipos do homem, extraídos de figuras bíblicas. De Adão a Jesus Cristo, Anselm Grün analisa psicologicamente as crises/superações dos personagens-exemplo, munido dos relatos que a tradição bíblica apresenta. Não se trata de um discurso teológico ou visto a partir da proposta salvífica de Deus para o povo de Israel. Tem-se uma ênfase no lado puramente humano das figuras bíblicas. As crises diante de sua missão, dúvidas, personalidade frágil, são o material que lhes forneceram realizar as passagens necessárias, a fim de libertar o divino que tinham em si.
          Partindo do homem primitivo do relato do Gênesis, Adão, seguindo através dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. Do irmão desprezado José até o líder Moisés e o guerreiro Sansão. O grande rei Davi, o amante Salomão e o melancólico profeta mártir Jeremias, junto com Elias. Do justo sofredor Jô até o pícaro e cômico Jonas. Chegando em Pedro, o missionário Paulo, o precursor João Batista e o discípulo amado João. Enfim, desembocando em Jesus Cristo que, para o autor, é a reunião perfeita de todos os arquétipos até então descritos. Grandes exemplos dos quais Grün tece belas reflexões e extrai preciosas lições para os homens de hoje.
          Como está claro, e assim é deixado para o leitor, este livro não foi escrito visando as mulheres e sim exclusivamente os homens. Trata-se de um precioso instrumento de motivação existencial e integração do lado sombrio, muitas vezes oculto na cultura pós-moderna. Interessante ainda mais pela atualização da tradição bíblica, em um caráter de proximidade com a visão antropológica. Enfim, é uma obra indispensável para homens que procuram uma compreensão e aceitação de suas verdades masculinas, a fim de vivê-las sadiamente.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Lutar e Amar
Subtítulo: como os homens encontram a si mesmos
Autoria:    Anselm Grün
Editora:    Loyola
Ano:         2006
Local:       São Paulo
Gênero:    Espiritualidade | Religião

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Médico de Homens e de Almas (Taylor Caldwell)



         Considerado um dos melhores romances bíblico de todos os tempos e um clássico da literatura mundial, essa obra épica narra, de forma romanceada, mas coerente com os fatos históricos, a história de São Lucas – chamado Lucano -, um dos quatro evangelistas cristãos. A obra é fruto de 46 anos de dedicação da sua autora, cujo cuidado em sua escrita justifica o sucesso pelo mundo.
         Embora de origem humilde, Lucano era bastante estimado por Deodoro Cirino, tribuno romano que vivia com sua família na Síria. O pai de Lucano, Enéias, fora escravo liberto de Deodoro, por quem tinha muito apreço e ainda servia fielmente com sua esposa Ísis. Lucano era muito amigo da filha do tribuno, Rúbria, por quem nutria um amor puro desde a infância. Rúbria encontrava-se bastante enferma e corria sério risco de morte. Já na infância, certo poder místico de Lucano é manifesto quando Rúbria apresenta sinais de uma cura rápida e inexplicável.
         Como Deodoro via o talento daquele garoto, sentia também ser ele predestinado a um futuro brilhante. Com isso, investe no menino para que ele aprimorasse seus estudos e se formasse um excelente médico. Keptah, escravo e médico a serviço do tribuno, seria incumbido da missão de iniciar o jovem nas artes da medicina. Lucano corresponde e torna-se um profissional dedicado e cuidadoso no trato das moléstias humanas. Desde cedo, Lucano conservava também a fé em um Deus que tudo criara e tudo regia. Embora grego, a espiritualidade de Lucano levava-o a crer mais no "Deus desconhecido" dos judeus do que no politeísmo do Olimpo. No trato com seus pacientes, Lucano vivia seus valores religiosos, de forma que, em muitos deles, detectava males que outros médicos não percebiam e curava doenças que outros médicos davam como incuráveis. Na verdade, ele sabia que muitos dos que o procuravam estavam doentes da alma e não do corpo.
         Após três mortes trágicas e consecutivas, a fé de Lucano passou por uma crise de revolta: seu pai Enéias morrera durante uma tempestade, tentando preservar alguns escritos; Rúbria falecera em decorrência de sua doença; Aurélia, esposa de Deodoro, morrera durante o parto de seu filho prematuro. Lucano exercia seu ofício entre os pobres e não se conformava com o fato de Deus permitir que pessoas boas sofressem males indescritíveis. Se Deus era um bom pai, então porque permitia o sofrimento de seus filhos? Acompanhava-o José Ben Gamliel, que era um homem piedoso. Lucano não conseguia compreender como aquele homem louvava a Deus, o qual, em sua concepção, era o mortífero inimigo de todos os homens. Ainda assim, dedicava-se com esmero aos pobres abandonados até mesmo pelo Pai de todos os homens.
         As viagens de Lucano levaram-no a Jerusalém onde ouviu falar de um homem enigmático chamado Jesus Cristo, que vivera ali, fora crucificado e ressuscitara havia poucos dias. Sua opção preferencial pelos pobres era a característica mais marcante para Lucano. A partir daí procurou conhecer melhor sobre aquele homem e teve sua vida transformada por encontrar as respostas que havia tanto tempo trazia consigo. As histórias que ouvira, principalmente do rico judeu Hilell Ben Hamram e de alguns influentes soldados romanos, foram todas escritas, vindo a formar o Evangelho segundo Lucas meditado pelos cristãos de todos os tempos.
         Em meio aos fatos que dão forma à história torna-se surpreendente acompanhar a evolução espiritual por que passa o protagonista. Lucano jamais vira Jesus pessoalmente, mas acreditara piamente em suas palavras a ponto de viver uma espiritualidade íntima e comunicá-la às pessoas. Fora convencido pela fisionomia mística daqueles que com ele estiveram de que aquele galileu de fato era o esperado pelos judeus, cujo nascimento ocorrera naquela noite em que o pai de Lucano mostrara-lhe uma estrela cadente no céu. E essa estrela sempre brilhou no coração e na prática de Lucano a ponto de ser registrada em seu evangelho.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Médico de Homens e de Almas
Autoria:    Taylor Caldwell
Editora:    Círculo do Livro
Local:       São Paulo
Gênero:    Cristianismo | Espiritualidade

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A Sabedoria de Gandhi (Richard Attenborough)



            Esse pequeno livro traz uma coletânea de mais de 150 trechos de cartas, textos, discursos e citações daquele que foi uma das figuras mais influentes do século XX, cuidadosamente selecionadas e reunidas por Richard Attenborough. Como cineasta, o organizador da obra também dirigiu um filme clássico – Gandhi (1982) - sobre o mesmo personagem, vencedor de 8 Oscars.
            Sistematicamente, o organizador classifica os pensamentos de Gandhi em cinco temas: dia-a-dia, cooperação, não-violência, fé e paz.
            Mahatma Gandhi tornou-se um ícone da paz universal ao defender o Estado Indiano por meio de um movimento ativista que pregava a não-violência e a não-agressão. Inteiramente centrado na simplicidade de vida e na austeridade das ações, seguia o princípio da satyaghaha. Daí derivou o movimento indiano de resistência pacífica contra a injustiça, baseado na verdade (satya) e firmeza (agraha), que era tido como o "caminho da verdade". Para além das justificativas instintivas para atos hediondos, Gandhi acreditava que a ausência de qualquer tendência à violência (ahimsa) era um estado natural do espírito humano e é baseado nisso que o ser humano deve buscar a solução pacífica de todos os conflitos, mediante o diálogo, a cooperação e a concórdia. A não-violência é a mais nobre das atitudes e forte expressão da coragem no mais alto grau, dispondo-se até mesmo ao sofrimento. A fé em Deus consistiria em um motor encorajador para essa prática da não-violência e as religiões, ao invés de se confundirem na busca pelo deus verdadeiro, deveriam servir como caminho para o alcance da paz de espírito e a paz universal: "As religiões são estradas diferentes convergindo para o mesmo ponto. O que importa tomarmos caminhos diferentes desde que alcancemos o mesmo objetivo?".
            Em uma abordagem da política das massas, Gandhi considerava que o mais difícil de ser alcançado era fazer com que o povo adquirisse consciência de sua força quando unido em prol do mesmo objetivo. Contudo é importante superar a oclocacia, ou seja, o governo exercido pelas massas, que não pensam e simplesmente repetem inadvertidamente aquilo que algum líder lhes inspira. Era necessário introduzir a lei do povo em lugar da lei das massas.
            Gandhi também ensinava que devia ser dado ao trabalho manual o mesmo valor que era atribuído aos aprendizados intelectuais. Com isso, atacava a tendência a valorizar mais aqueles que discutiam e implantavam os regimes, em detrimento daqueles que executavam os processos, vistos como meros repetidores de processos. Com sua vida humilde e de nenhuma extravagância, o mahatma pregava a simplicidade como fonte de igualdade de todos os seres em sua bela e mais pura essência, de forma que o acúmulo de bens, valores ou títulos não se sobreponham à exaltação da dignidade de pessoa humana que cada um carrega consigo, logo ao nascer.
            Os textos apresentados nesse pequeno resumo da filosofia de Gandhi questionam profundamente os fios que estruturam a sociedade moderna e fazem com que o leitor reflita na atualidade de sua própria vida, assim como nos caminhos próximos ou distantes que o mundo trilha. Contudo, tais ideias podem também tornarem-se estéreis, como simples palavras de um livro de estante, caso não promovam mudanças objetivas. Isso porque, como idealista pragmático que era, para Gandhi, os escritos não possuem valor algum se não forem verificáveis mediante ações concretas e promotoras de mais vida.

 REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:        Sabedoria de Gandhi, A
Autoria:      Richard Attenborough (org.)
Editora:      Sextante
Ano:           2008
Local:         Rio de Janeiro
Edição:       1ª
Gênero:      Filosofia | Hinduísmo

Confira o trailer do filme Gandhi produzido em 1982: