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sábado, 19 de maio de 2012

Quando Nietzsche chorou (Irvin D. Yalom)

          Trazendo sua experiência clínica enquanto psicanalista, Irvin D. Yalom mais uma vez constroi uma trama sobre os conceitos freudianos, desta vez envolvendo não só o próprio pai da psicanálise, como também um dos maiores nomes da filosofia de todos os tempos: Friendrich Nietzsche.
          Josef Breuer é um médico psiquiatra famoso por seu olhar perspicaz em descobrir a cura para seus pacientes. Desses, vale destacar o caso de histeria de Bertha Pappenheim, psêudonomeada Anna O.. A partir das consultas que teve com ela, Dr. Breuer formulou uma importante teoria, segundo a qual, ao fazer com que o paciente retroceda até a fonte exata de um sintoma, este desapareceria por si mesmo. Tal retrocesso se daria por uma conversa em torno das reais causas do problema, cada vez mais clareando as implicações desse no quadro clínico apresentado. Anna O. atribuíra o termo de "limpeza de chaminé" a esse procedimento em suas terapias, quando fazia suas colocações sem qualquer espécie de censura, à respeito de suas aflições. Dr. Breuer partilhava suas experiências com Sigmund Freud, seu amigo pessoal e aluno. Além disso, dividia o tempo entre o trabalho e a família, representada pela esposa Mathilde e seus filhos.
          Em um dos dias da rotina de seus atendimentos, Dr. Breuer recebe a visita de uma mulher chamada Lou Salomé, que lhe dissera ter um amigo que muito precisava de sua ajuda médica, mas que era por demais orgulhoso para pedi-la. Movido mais pelos encantos de Salomé do que pelo interesse em ajudar, Dr. Breuer decide ir ao encontro do referido homem. Tratava-se do professor Friendrich Nietzsche: uma pessoa de personalidade rígida, convicta de suas opiniões e fechada sobre si mesma. Os primeiros encontros deram a Breuer a dimensão do desafio que aceitara. No entanto, desejoso de não perder o paciente após uma séria discussão, Dr. Breuer decide inverter os papeis para tratar o caso de Nietzsche: revelaria a ele aspectos afetivos de seu envolvimento com a paciente Anna O., bem como sua relação conturbada com a esposa por causa disso, na tentativa de que Nietzsche se abrisse à partilha, quando cada um deveria voltar a seus devidos lugares. Desta forma, Nietzsche aceita se internar no quarto 13 da Clínica Lauzon, em Viena, para tratar o caso de Breuer. Este, por sua vez, partilharia as experiências vividas com seu paciente com Sigmund Freud, empregando o codinome Herr Eckart Müller para se referir ao professor. Restava a Breuer mensura o momento certo em que quebraria o pacto e voltaria a ser o médico de Nietzsche. Mas o grau de envolvimento que teria ao falar de si e a perspicácia do professor colocariam Breuer numa situação que dificilmente poderia ser revertida.
          Embora empregando nomes de personagens e fatos verídicos, a trama narrada por Yalom é essencialmente fictícia. Mesmo assim, o leitor poderá se beneficiar de um conhecimento mais amplo, já que o autor faz alusão a conceitos ou teorias psicanalíticas e filosóficas como a regressão, a livre associação de ideias, a projeção, o niilismo, a religião como uma alienação, o cristianismo como um fardo pesado para os fieis. Interessante destacar também a riqueza literária da obra em seguir um tendência encontrada em outras obras do autor, como o atendimento clínico transformado em literatura. Os traços de cada personagem permitem uma coerência na construção da trama. Coerência essa que é rompida quando é revelada a fase de crise dos mesmos. Tal revelação é surpreendente principalmente no choro de Nietzsche, quando este parece ser a figura mais firme e coesa do romance como um todo.
 
YALOM, Irvin D. Quando Nietzsche chorou. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. 20ª ed.. 410 pgs.
 
Confira a adaptação para o cinema lançada em 2007:
 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Mentiras no Divã (Irvin D. Yalom)

mentiras no divã          Irvin D. Yalom nasceu em Washington (EUA) em 1931. Filho de imigrantes russos, viveu toda a sua infância em um bairro pobre. Encontrou seu refúgio na literatura, um mundo alternativo e mais satisfatório. Cursou medicina e se especializou em psiquiatria. Psicoterapeuta e professor emérito de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, publicou inúmeros títulos na área acadêmica. Outras obras famosas do autor são Quando Nietzsche chorou e A Cura de Schopenhauer.
          Em Mentiras no Divã encontramos as atividades do atendimento clínico vividas por dois psicanalistas: Ernest Lash e Marshal Streider. Lash era um especialista em psicofarmacologia que, a partir de um caso de má conduta profissional vivido por Seymour Trotter, ex-presidente da Associação Psiquiátrica Americana (APA), se interessa pelo atendimento clínico. Desejoso de inovar em seu método de análise, opta pela honestidade e sinceridade na relação terapeuta-paciente. Nesse contexto se depara com Carol Astrid que, decepcionada com a separação de seu marido Justin, resolve se tornar paciente de Ernest, acreditando que a decisão do marido fora influenciada por ele. Assim, sob o pseudônimo de Carolyn Leftman, por meio de uma história cuidadosamente inventada, Carol tenta seduzir Ernest, a fim de denunciá-lo por má conduta sexual.
          Outra história paralela é vivida por Marshal. Supervisor de Ernest, é um homem de caráter orgulhoso, cego pela cobiça, centrado no sucesso material e obcecado pelo bem-estar. Casado com Shirley, discordava da mulher por esta ser adepta ao ikebana, uma técnica oriental cujo tratamento psicológico das pessoas era feito por meio de arranjos florais.
          Marshal gozava de prestígio na Associação Psiquiátrica Americana. Orgulhava-se pelo seu olhar perspicaz no tratamento de seus pacientes, sempre obtendo resultados satisfatórios. Foi uma peça importante principalmente na descoberta de que Seth Pande, um respeitado membro da associação, havia falhado na aplicação clínica de alguns conceitos da psicanálise. Diante disso, o instituto decide pela expulsão de Pande e convoca seus ex-analisandos para uma espécie de recall, inteiramente grátis.
          Dentre seus diversos pacientes, Marshal se encontra com Peter Macondo, um rico investidor. Macondo lhe oferecia mais do que os honorários de Marshal requeriam e fazia o mesmo com a terapia da mulher, Adriana. O laço de amizade estreitado e as garantias de Peter, levam Marshal a fazer um investimento de 90 mil dólares em ações. Isto o leva a um prejuízo considerável agravado ainda mais quando tenta pegar o fraudatário em flagrante e acaba caindo em um novo golpe. Cobiça e vingança fazem o edifício de Marshal desabar. Seu refúgio eram os diálogos com sua advogada que, por sinal, era Carol.
          Os jogos de poder e os vínculos interpessoais são o pano de fundo no qual Mentiras no Divã se desenrola. Nesse sentido, algumas questões interessantes podem ser suscitadas na mente do leitor: até que ponto o compromisso com a verdade firmado entre analista e analisando é, de fato, cumprido? Ou até que ponto a perspicácia do analista é capaz de confirmar se seu analisando está sendo verdadeiro ou não? Quais os riscos envolvidos nessa relação?
          Enfim, a obra de Yalom é mais uma história intrigante e envolvente do mundo oculto e confidencial dos consultórios psicanalíticos.
 
YALOM, Irvin D. Mentiras no Divã. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. 404 pgs.