quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Ladrão de Cadáveres (James Bradley)

A história desse romance se passa em Londres, durante a década de 1820. A julgar pelo título, tem-se a impressão de que a narrativa abordará algum tema de suspense, até mesmo apimentado com um pouco de terror. Contudo, tal expectativa não é correspondida, de forma que a história apresenta-se de uma forma pouco instigante e até mesmo sem um desfecho convincente.
Gabriel Swift é órfão e chega à capital inglesa, onde começa suas aulas com o professor de anatomia Edwin Poll, sob recomendação de seu tutor. Era sua chance de salvar seu futuro, construindo uma carreira sólida no ramo da medicina. As leis daquela época eram bem rigorosas em relação às autorizações para a necropsia, de forma que somente corpos de criminosos devidamente autorizados pela justiça poderia ser submetidos aos estudos de exumação. Nesse contexto, o contrabando era a melhor alternativa para que o ensino da anatomia não fosse prejudicado. Lucan era um dos principais fornecedores desse comércio macabro, saqueando os túmulos dos cemitérios a fim de obter a matéria-prima que era tão importante para os anatomistas. Quanto mais frescos e em menor estado de decomposição os corpos fossem obtidos, maior era o valor que os professores pagavam por eles.
Gabriel não era um aluno vocacionado para a medicina. Seus talentos eram mais desenvolvidos em desenhar as partes que eram dissecadas. No que diz respeito à sua vida amorosa, nutria uma grande afeição por uma prostituta famosa cujo nome era Arabella além de ser um viciado em ópio. Incomodava-o o fato de que tinha de se conformar em dividir a pessoa amada com outros homens, ao ponto de tal paixão levar Gabriel a agredir a pessoa errada, de forma que não lhe restara outra punição senão a dispensa do quadro de discentes do professor Poll. Sem dinheiro e largado pelas ruas, Lucan acaba envolvendo Gabriel em seu ofício macabro de conseguir defuntos e lucrar com esse negócio. Contudo, a obsessão de Lucan pelo lucro levaria a uma onda de assassinatos, no intuito de conseguir vender corpos ainda mais frescos e obter um melhor pagamento com isso. Gabriel se perde no vício e, principalmente, nesse trabalho sujo, perdendo até mesmo sua própria identidade e subvertendo os valores que o ópio ainda não apagara de sua consciência.
Não obstante o resumo anterior seja mais do que suficiente para que um autor de sucesso construa uma história instigante, não é o que acontece com O Ladrão de Cadáveres. Por outro lado, o que temos é uma narrativa cansativa, sem um escopo e um objetivo claros, com personagens confusos e poucos diálogos. Somente a divisão em capítulos curtos é capaz de torná-lo menos monótono. A obra divide-se em duas partes e a segunda tem como objetivo esclarecer um pouco os acontecimentos consequentes da primeira, principalmente depois de Gabriel envolver-se nos assassinatos para sustentar seu vício em ópio. De forma um tanto pior, essa segunda parte deixa a desejar no quesito desenvolvimento e desfecho. Com tantas críticas negativas, talvez possamos tirar bom proveito desse livro se o lermos sob a ótica da reflexão que ele traz sobre algumas dicotomias: vida/morte, vício/prazer, honestidade/corrupção, amor/possessão, etc.. Enfim, é o tipo de obra cuja apresentação visual da capa e o título aguçam o interesse, mas cujo enredo desafia o leitor a investigar a verdadeira mensagem que o autor e principalmente o protagonista ansiaram por transmitir. Trata-se de um livro que trabalha mais com a reflexão ao invés de fornecer um entretenimento leve e divertido.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:    Ladrão de Cadáveres, O
Autoria:  James Bradley
Editora:  Record
Ano:       2013
Local:     Rio de Janeiro
Gênero:  Drama

domingo, 8 de outubro de 2017

O Regresso (Michael Punke)



Baseado na saga de um personagem real, essa obra originou o filme homônimo lançado em 2015 cujo sucesso rendeu diversas indicações ao Oscar no ano seguinte, sendo vencedor em três categorias.
A história conta a saga de Hugh Glass, um dos caçadores pertencentes à Companhia de Peles Montanhas Rochosas, fundada por William Henry Ashley. No começo do século XIX, o comércio de peles entre homens e indígenas no oeste norte-americano, além de ser um negócio altamente rentável, era uma forma de garantir o convívio pacífico entre os dois grupos, ainda que muitas tribos fossem relapsas em manter contato amistoso com os homens brancos, como por exemplo, os arikaras e os sioux. Mais precisamente no ano de 1823, o Capitão Andrew Henry liderava uma expedição que subiria o rio Missouri até sua fonte, em busca da matéria-prima da companhia. Num episódio trágico, Hugh Glass é atacado por um urso, travando uma dura batalha com o animal e herdando ferimentos que o deixaram à beira da morte. Compadecido com o estado deplorável do companheiro, Henry decide seguir adiante na missão da companhia, enquanto Hugh Glass seria deixado na companhia de John Fitzgerald e Jim Bridger, para que fizessem dignamente seu sepultamento quando falecesse. No entanto, face ao estado lamentável de desfalecimento de Glass e ameaçados pela aproximação de alguns indígenas, os encarregados o abandonam e roubam suas coisas, especialmente seu estimado rifle Anstadt, deixando-o à mercê dos perigos da floresta e da própria morte.
Nesse contexto inicia o grande tema a que o livro se propõe que é narrar a saga de sobrevivência de um homem alimentado por um único desejo: vingança. As suturas rudimentares que Glass recebera quando ainda estava sob os cuidados do Capitão Henry eram uma pobre garantia de que sua sobrevida ainda se estenderia por algum tempo. Mesmo assim, Glass consegue ir além de suas dores para buscar algum alimento, ainda que esse seja uma carne pútrida de um búfalo que servira de alimento aos lobos. Suas feridas infeccionaram e estavam repletas de larvas quando um encontro que poderia por fim à sua vida faz com que ele receba uma nova chance. Índios sioux haviam-no encontrado e trataram suas feridas. Após, Glass fora levado ao forte Kiowa Brazeau, onde recebera comida e armas, além de aceitar um pedido de se unir a uma expedição. Era uma estratégia para que ele encontrasse o caminho que o levaria até o Forte Union, onde encontraria aqueles que o abandonaram e espoliaram seus pertences.
A característica mais marcante dessa história dramática é a coragem que o protagonista tem em superar seus mais terríveis desafios, animado por um instinto de sobrevivência e vingança incríveis. Não bastasse o estado deplorável de seus ferimentos, Glass ainda consegue valentemente driblar o frio congelante, a fome atroz e até mesmo permanecer oculto dos perigosos índios arikaras. Nessa narrativa, os méritos do autor ao contar episódios mórbidos e até mesmo repugnantes deve ser louvado. Mais do que a defesa da própria honra, vale destacar o instinto de sobrevivência e o impulso que um desejo ardente é capaz de realizar em uma vida, ainda que animado por uma virtude que não é das mais nobres. Ao leitor ficará o sentimento de raiva de alguns personagens enquanto a curiosidade por conhecer o desfecho o fará destrinchar página a página dessa obra que é uma das melhores do gênero sobrevivência escritas até hoje.

REFERÊNCIA LITERÁRIA

Título:    Regresso, O
Autoria:  Michael Punke
Editora:  Intrínseca
Ano:       2016
Local:     Rio de Janeiro
Gênero:  Drama | Aventura | Sobrevivência


Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 2015:


 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O Clã dos Magos (Trudi Canavan)

A cidade de Imardin era um local dominado por alguns grupos hierárquicos como Ladrões, Magos e favelados. Anualmente, protegidos por um escudo invisível, os magos saiam às ruas para purificá-las dos inúmeros mendigos e vagabundos que se espalhavam copiosamente. Tal ritual, conhecido como o Dia da Purificação era justificado por um juramento que tinham feito ao rei de o servirem e protegerem o reino de Kyralia. Durante um desses episódios, uma garota, Sonea, decepcionada com aquele abuso, atira uma pedra contra o Escudo Protetor, que acaba atingindo em cheio Lorde Fergun. Tratava-se de um fato inusitado e que deixava o clã dos magos em alerta, uma vez que era o indicativo de que alguém detentor dos mesmos poderes que eles estava à solta na multidão. Desse momento em diante, o principal escopo dos esforços deles seria encontrar aquele intruso, uma vez que, caso não aprendesse a dominar os próprios poderes mágicos, poderia significar uma grave ameaça a todos.
Cery e Harrin eram moradores das favelas e companheiros de Sonea. Após o acontecido, ambos ajudariam a amiga a se esconder do clã. Muito embora o ato de Sonea tenha atentado contra a integridade física de um dos magos mais estúpidos do clã, havia ali também outros magos bem intencionados como Lorde Rothen, o qual nutria ideias mais equilibradas e democráticas em relação ao restante da casta. Lorde Rothen queria encontrar a garota não para puni-la ou amedrontá-la e sim para ajudá-la a controlar seus poderes. Desta forma, o livro se desenvolve em uma trama de artifícios de ambos os lados, seja para a captura de Sonea, seja para que ela se veja livre das intenções escusas do Clã dos Magos.
Embora pautado pelo tema da magia, caracterizando a obra como um livro essencialmente de literatura fantástica, direcionado a um público mais juvenil, há que se dar atenção aos temas políticos que são tratados nas entrelinhas. A cidade de Imardin era estratificada em castas hierárquicas e o favoritismo do rei aos magos era evidente, principalmente pelo ritual anual da Purificação. No outro plano estavam os favelados, excluídos, ladrões, cuja existência era uma afronta aos poderes constituídos e, portanto, algo a ser duramente combatido. A inexistência de leis democrática que protejam os direitos dos menos favorecidos faz com que o universo de O Clã dos Magos seja paralelo àquele que foi pintado na Idade Média, quando todo o poder se concentrava nas mãos do rei, usando-o a seu bel prazer. Talvez a casta dos magos possa ser comparada ao papel que a Igreja exercia naquele tempo e, nessa comparação, a figura de Lorde Rothen seria a daqueles personagens que, embora fazendo parte do corpo eclesiástico, tinha ideias mais conciliadoras e buscavam convencer as hierarquias acerca de uma nova forma de exercerem seu papel na sociedade.
Primeiro volume da Trilogia do Mago Negro, o universo criado pela autora em O Clã dos Magos possui traços próprios. A autora investiu em um mundo onde as favelas possuem gírias características e os alimentos também recebem nomes peculiares. Um glossário e um mapa ao final do livro servem como material de consulta e ajudam o leitor a compreender melhor esses traços. Enfim, a história continua no próximo volume, que muito provavelmente, tratará sobre o treinamento de Sonea e a reação dos magos mais estúpidos ao saberem que uma favelada era detentora dos mesmos poderes que eles e, portanto, digna dos mesmos direitos.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Clã dos Magos, O
Autoria: Trudi Canavan
Editora: Novo Conceito
Ano:      2012
Local:    Ribeirão Preto
Série:    Trilogia do Mago Negro - Volume I
Gênero: Suspense

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Éramos Seis (Maria José Dupré)

            De todos os títulos da nostálgica Coleção Vaga-lume, talvez seja esse um dos mais célebres, especialmente porque foi adaptado para telenovelas por quatro vezes, sendo a mais famosa aquela que foi ao ar pela emissora Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), em 1994.
            Nos anos iniciais do século XX, Dona Lola e o marido Sr. Júlio começavam a formar seu núcleo familiar com o nascimento do primeiro filho: Carlos. Haviam saído de Itapetininga e foram morar em São Paulo, levando na bagagem a esperança de melhorias com maiores oportunidades de emprego. Com o passar dos anos, outros três filhos vieram: Alfredo, Julinho e Isabel. Para garantir o sustento de toda a família e conseguir quitar as parcelas da casa nova, Júlio trabalhava em uma loja enquanto Lola atendia a encomendas de doces.
            A obra é inteiramente narrada em primeira pessoa pela protagonista, Dona Lola. Portanto, trata-se de um livro de memórias de um período de mais ou menos vinte anos de sua família. Eventos do cotidiano, amenidades, comemorações familiares e viagens são as memórias boas que ficaram marcadas no espírito de Lola. Contudo, a vida dera duros golpes logo nos primeiros anos da educação dos filhos, sendo os mais doloridos a morte de sua mãe em Itapetininga e a perda do marido, vítima de uma úlcera. Desde então, Lola passa a ser a imagem da mãe guerreira responsável pela criação dos quatro filhos, sendo ajudada principalmente por Tia Candoca e pela vizinha, Dona Genu.
            Após a morte de Júlio, a família passara por sérias dificuldades financeiras. Carlos e Alfredo começaram a trabalhar para ajudar a mãe, como também para que Julinho e Isabel pudessem continuar os estudos. Nessa labuta, a personalidade de cada um vai se exteriorizando: Carlos era o filho estudioso, obediente e dedicado inteiramente à família; Alfredo era rebelde, deixando empregos bons a contragosto da mãe e do irmão, além de envolver-se com grupos que nutriam ideiais comunistas; Julinho era dado aos negócios e tornar-se-ia o primeiro filho a sair de casa, indo morar no Rio de Janeiro por causa de uma boa oferta de emprego; Isabel recebia o maior investimento em termos de educação para que se tornasse professora. Dona Lola era uma mãe tradicional que aconselhava os filhos sobre o que pensava ser o melhor para eles, além de preocupar-se bastante com a imagem social de sua família. Tamanha dedicação, no entanto, não receberia o mesmo grau de correspondência de todos eles. E é justamente por causa dos diversos ideiais da juventude, somado às ciladas da vida, que vemos Dona Lola cada vez mais só, levando a compreender o acertado título dessa obra magnífica: Éramos Seis. Como uma mulher forte, ela representa todas as mães que veem sua família se acabar pouco a pouco, deixando-as solitárias e reféns das lembranças nostálgicas de um passado bom.
            Muito embora o sucesso obtido ao se popularizar com a telenovela, principalmente numa época em que as televisões tornavam-se um eletrodoméstico cada vez mais cobiçado e acessível aos brasileiros, a importância dessa obra resulta também no fato de que ela é uma imagem de grande parte das famílias dos anos 80, 90, com seus dramas e conquistas. Importante observar também que, em um país cujo analfabetismo era bastante alto, “assistir” a um livro era a maneira mais acessível de absorver o seu conteúdo. O fenômeno do êxodo rural ocasionara a migração de diversas famílias do campo para as cidades, em busca de melhores oportunidades. Com isso, tais núcleos familiares viviam nas cidades mas, vez ou outra, visitavam os parentes que ficaram no interior. A educação também era o grande trunfo para garantir o bom futuro dos jovens e, se formar um filho no colegial já era motivo de orgulho, quanto mais vê-lo obtendo um diploma de ensino superior, o que representava até mesmo um novo status social. Vemos ainda a questão dos bens materiais, de forma que um dos medidores do sucesso financeiro era conseguir comprar um veículo. Portanto, se confrontarmos essa história com os sonhos de muitos brasileiros que assistiam encantados a adaptação dessa obra fantástica, veremos a carga de esperança que ela despertava, fazendo com que se tornasse, mais do que um grande sucesso, um ideal a ser vivido.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Éramos Seis
Autoria: Maria José Dupré
Editora: Ática
Ano:      1987
Local:    São Paulo
Edição:  30ª
Série:    Coleção Vaga-lume
Gênero: Drama

Confira o 1º capítulo da novela lançada pelo SBT: