sexta-feira, 21 de abril de 2017

Spartacus: o gladiador (Ben Kane)

            Consagrado como o gladiador mais famoso de todos os tempos, Spartacus teve sua história imortalizada e, frequentemente, recontada nas mais diversas artes: cinema, literatura, poesia, música, teatro, etc..           Seus feitos contam a história da resistência da minoria oprimida frente ao poder político opressor.
            Spartacus era originário da Trácia e servira por dez anos no exército romano, onde adquiriu grande experiência em batalha. Após sua deserção, retornou a sua terra natal e, ao tentar defender a sacerdotisa Ariadne dos ataques ciumentos do Rei Kotys, ambos foram feitos prisioneiros. Spartacus havia se tornado um escravo e fora vendido para um lanista (treinador de gladiadores) no território de Cápua. Para que Ariadne não ficasse sujeita a um novo ataque de Kotys, ambos forjaram a história de que eram casados, de forma que pudessem seguir viagem juntos, ainda que escravos.
            O ludo (escola de gladiadores) no qual Spartacus servia estava sob a tutela de Phortis. A covardia, brutalidade e barbaridade eram as maiores companheiras dos gladiadores que conviviam com a certeza de que poderiam ser fatalmente feridos a qualquer momento. A única forma de conseguir a liberdade era após anos de vitórias e lutas sangrentas, o que significava ser praticamente impossível escapar ileso. Enquanto isso, os proprietários se enriqueciam organizando munus, combates entre gladiadores promovidos pelos políticos, a fim de desviar a atenção do povo de suas reais necessidades e aumentar a popularidade dos governantes. Em um desses, patrocinado pelo senador Crassus, Spartacus fora escalado para uma batalha que poderia por fim a todos os seus sonhos de vingança. Contudo, o trácio consegue provar seu valor em uma vitória heroica e impressionante.
            Mesmo sabendo dos riscos aos quais estaria expondo a si e a seus companheiros, Spartacus resolve organizar uma fuga do ludo. Para isso deveria contar com o apoio da maioria dos líderes das diversas nacionalidades que ali conviviam, uma vez que seria uma fuga em massa. Dentre esses, os mais irredutíveis seriam os gauleses, principalmente Oenomaus, Castus, Gannicus e Crixus. Spartacus contaria com o importante apoio de Carbo, um jovem romano cujos vislumbramento como as batalhas o fizera se tornar um auctorato (cidadão romano livre que se oferece para tornar-se um gladiador). O plano estava combinado mas um traidor revelara-o aos donos do ludo. Nesse episódio, uma carnificina acontece, porém os escravos conseguem a sonhada liberdade e Spartacus consegue fugir com mais de setenta deles.
            A liberdade alcançada pelos escravos não significava tranquilidade. O senado romano enviaria diversas tropas para calar aquela rebelião e Spartacus precisaria manter o grupo unido e coeso, além de treiná-los bem para a resistência. Com isso, o livro se desenvolve em várias outras batalhas que demonstram o combate entre oprimidos e opressores. As divindades são frequentemente invocadas por Spartacus (o Grande Cavaleiro) e Ariadne (Dionísio) trazendo o aspecto religioso e imanente daquela jornada. O autor também aborda os conflitos internos que aconteciam entre os escravos, sendo que o episódio envolvendo Crixus e a amante de Carbo – Chloris – é um dos mais revoltantes.
            Nesse contexto de honra e glória Spartacus prova o porquê tornou seu nome imortalizado na história. O livro é muito bem construído e desenvolvido, deixando muito clara a evolução preocupante que aquele motim provocara nos poderes políticos. Uma verdadeira odisseia de um guerreiro que não renunciou à sua liberdade e desafiou perigosamente o poder de Roma.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Spartacus
Subtítulo: o gladiador
Autoria:    Ben Kane
Editora:    Agir
Ano:         2014
Local:       Rio de Janeiro
Série:       Spartacus - Vol. I
Gênero:    Drama | Épico

Confira o trailer da série produzida pela Starz:

terça-feira, 11 de abril de 2017

Meu Deus em quem confio (Jacques Loew)

meu deus em quem confio          Jacques Loew nasceu em Clermont-Ferrand (França) em 1908, filho de católicos não-praticantes. Trabalhou como estivador e foi advogado. Tendo se convertido aos 24 anos, mais tarde ingressou para a ordem dos dominicanos. Fundou a Missão Operária São Pedro e São Paulo (MOP) e a Escola da Fé.
          No cristianismo, a conversão é um fator chave para que a pessoa se reconheça em seu ser limitado e busque sua totalidade em Deus. Ela não é um processo isolado, de um único momento da vida do cristão, mas atravessa toda a sua existência, convidando-o sempre a aperfeiçoar-se em sua vivência da fé. É nesse sentido que a obra de Jacques Loew conserva o júbilo dos cinqüenta anos de seu encontro com Deus ou, em suas próprias palavras, de felicidade interior.
          Tudo começou a partir de sua estadia no sanatório em Leysin, e 1932, onde teve seus primeiros contatos com obras como A Imitação de Cristo, Confissões e o Novo Testamento. Filho de pais católicos, foi batizado e instruído nos ditames do protestantismo. Em uma Semana Santa na Cartuxa de Valsainte, sente-se profundamente tocado pela celebração dos mistérios de Cristo, especialmente pela Ceia do Senhor. A leitura de Pensamentos (Blaise Pascal) o faz refletir sobre a condição do homem no mistério de Deus. Era como se sentisse provocado a dar uma resposta que mudaria toda a sua vida: “Queres que seja sempre à custa do sangue de minha humanidade, sem que tu me dês tuas lágrimas? Cabe a mim tua conversão, não temas e reza com confiança” (p. 26). A partir daí decorreria todo um processo que culminaria em sua entrada para os dominicanos.
          A narrativa do padre Loew concilia dois pólos como parte de uma única e mesma realidade: a ciência e a fé. Os estudos e pesquisas da primeira facilitam a compreensão da segunda. Daí provém seu deslumbramento diante de um floco de neve, do ciclo reprodutivo da papoula ou do papel das abelhas na polinização. A fonte da tradição bíblica também é para ele uma história do caminho espiritual da ação de Deus na vida de homens que se abriram ao mistério. Consequentemente, isto o faz acolher e meditar nos grandes dogmas da doutrina católica como a confissão (todah), Eucaristia, Santíssima Trindade, Virgem Maria e ressurreição. São traços que o ajudam a, pouco a pouco, ir compreendendo o mistério do homem na vida de Deus e vice-versa.
          Por esta obra, padre Loew quer fazer um memorial de todo o itinerário de conversão que vivenciou. Reunindo aspectos autobiográficos e observando a própria história como espaço privilegiado de morada do divino, toda a alegria e júbilo de sua trajetória o fazem regozijar-se. A gratidão é o motivo pelo qual o autor realiza uma verdadeira profissão de fé na ternura e bondade manifestada por Deus, no decorrer de toda a sua vida. Com isso, transmite ao leitor e lhe desperta, para a sabedoria em reconhecer a presença divina na criação, no progresso humano e em sua própria jornada como peregrino neste mundo.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Meu Deus em quem Confio
Autoria: Jacques Loew
Editora: Paulinas
Ano:      1986
Local:    São Paulo
Gênero: Espiritualidade

sábado, 1 de abril de 2017

O Senhor das Moscas (William Golding)

            Originalmente publicado em 1954, somente anos mais tarde essa obra alcançou grande popularidade, devido à repercussão de sua história. Garantiu ao autor a obtenção do Prêmio Nobel em 1983 e teve duas adaptações para o cinema, em 1963 e 1990, respectivamente. É considerada um clássico da literatura pós-Segunda Guerra Mundial e fez com que algumas bandas famosas a homenageassem em suas músicas.
            Os traços de realidade da história são usados como alegorias no sentido de melhor transmitir a mensagem da obra: como o ser humano regride a seus instintos primitivos em situações limite. Embora não seja narrado o fato, tudo começa com um acidente aéreo em que os únicos sobreviventes são garotos de uma escola que estavam sendo levados para longe das zonas de guerra. Longe de serem crianças indefesas e ingênuas, a necessidade de sobrevivência clama para que se organizem e consigam triunfar daquele episódio catastrófico. Nesse grupo, alguns personagens se destacam e suas características possuem traços bastante peculiares: Ralph, o líder do grupo, traduz o espírito de democracia; Porquinho, frequentemente debochado pelos colegas em virtude de seu corpo obeso, na verdade é o mais inteligente; Jack, dotado de um espírito orgulhoso, possui um caráter extremamente frio para atividades insanas como a caça aos porcos.
            Talvez a maior alegoria seja a organização em sociedade a que o grupo é submetido. Algumas regras foram combinadas como a necessidade de ter em mãos uma concha para que alguém pudesse ter a palavra, bem como o cuidado em manter uma fogueira sempre acesa, já que algum navio poderia ver a fumaça e resgatar os meninos. Contudo, a existência de regras logo mostraria que isso não é sinônimo de organização, principalmente quando elas são confrontadas com os mais primitivos instintos humanos. Um exemplo é o episódio em que, ao partirem para a caçada de um porco que permitiria aos garotos se alimentarem de carne, os mesmos descuidam da fogueira e a deixam apagar, justamente quando no horizonte se vislumbrava uma embarcação. Era o estopim para que a divergência nos modos de pensamento fomentasse a divisão e o confronto entre eles.
            O tema do medo é abordado no livro a partir da suposta existência de um “Bicho” que poderia aniquilar os meninos. Quanto a isso, enquanto alguns se fecham e receiam outros se encorajam na busca por descobrir a criatura e destruí-la. Uma visão que Simon teve a partir de uma cabeça de porco revela o lado místico de toda essa alegoria. Afinal, aquela superstição era ou não verídica? A simbologia desse termo mostrará que o “Bicho” na verdade era a natureza humana e sua capacidade de fazer o mal quando se sente acuada.
            O ambiente paradisíaco da ilha talvez tenha sido escolhido pelo autor para distanciar ao máximo da sociedade como a concebemos. Trata-se de um retorno à vida primitiva e uma metáfora da regressão humana ao seu estado mais essencial. Confrontados com a distância das comodidades modernas e a necessidade de sobrevivência, os garotos são movidos a comportamentos cruéis, alguns devido a discordâncias pessoais, outros devido à disputa pela supremacia. Isso leva o leitor a um questionamento: por se tratarem de crianças, podemos supor que a tendência para o mal é algo inato ao ser humano ou algo aprendido, em virtude das circunstâncias da vida? Enfim, é possível concluir que o tema do mal é muito presente, justificando até mesmo o título do livro que é uma tradução mais romanceada para o termo hebraico Belzebu (Ba’al Zebub).

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Senhor das Moscas, O
Autoria: William Golding
Editora: O Globo | Folha de São Paulo
Ano:      2003
Local:    Rio de Janeiro | São Paulo
Gênero: Drama | Alegoria

Confira a adaptação para o cinema lançada em 1990:

quarta-feira, 22 de março de 2017

Cidades de Papel (John Green)

            Do mesmo autor do famoso best-seller A Culpa é das Estrelas, esse livro também foi adaptado para o cinema, lançado em 2015, embora com um sucesso menor do que aquele. John Green mais uma vez usa com maestria sua habilidade em inserir reflexões existenciais sutis nas vivências comuns de pessoas pós-modernas.
            Margo Roth Spielgeman e Quentin Jacobsen são dois adolescentes que, desde a infância eram vizinhos na cidade de Orlando (Colorado, EUA). Grandes amigos, durante uma de suas brincadeiras encontraram o corpo de um homem às margens de um lago. Aquele fato inusitado que poderia ser um episódio isolado, na verdade suscitaria nos dois muitos questionamentos existenciais, principalmente em relação à história do falecido. Mas o tempo passou e, como jovens comuns, seguiam sua rotina de festas e estudos como qualquer outro jovem norte-americano.
            Apesar de se comportarem apenas como amigos, Quentin nutria certo romance por Margo. Enquanto ele era um jovem que sonhava em terminar os estudos do colegial e logo ingressar na faculdade, ter uma carreira de sucesso, uma família e uma vida confortável, ela vivia uma vida de aventuras, seduzida por diversos mistérios e sempre disposta a vivenciar experiências que renderiam uma boa história. Foi assim que, certa noite, Margo surgiu na janela de Quentin intimando-o a acompanhá-la em uma noite incrível de feitos inusitados. Mesmo surpreso, Quentin aceita. Juntos, realizam façanhas incríveis desde trolar a amante do ex-namorado de Margo, que a estava traindo até um passeio noturno pelo Sea World em Orlando. Ao término daquelas realizações, Quentin e Margo estariam em um dos andares de um prédio a observar a cidade. Para Margo, tudo aquela imensidão de construção não passava de uma “cidade de papel”, uma metáfora para simbolizar a fugacidade daquilo que parecia tão imponente, onde as pessoas viviam seu cotidiano rotineiro e tentavam encontrar sentido nessa monotonia.
            Estava próxima a festa de formatura dos alunos. Quentin e seus amigos – Radar, Ben e Lacey – estavam ansiosos pelo tradicional baile, cada um procurando adiantar seus pares. No entanto, o par que Quentin queria, depois daquela noite de façanhas não compareceu mais à escola. Margo estava desaparecida, mas Quentin tinha a firme convicção de que ela havia deixado pistas, como sempre fizera nas outras vezes. Foi assim que ele descobriu um exemplar do poema “Canção de mim mesmo” de Walt Whitman, onde algumas passagens enigmáticas foram grifadas com uma caneta marca-texto. Aquilo parecia ser sinais de Margo, que somente Quentin poderia decifrar. Era o início de uma procura, que o levaria, inicialmente a casarões abandonados na própria cidade e, depois, à extinta cidade de Agloe, uma cidade de papel que findaria o grande enigma de Margo Roth Spielgeman.
            O termo “cidades de papel” além do sentido conotativo enunciado por Margo durante a noite em que saíra com Quentin possui também um sentido denotativo. Trata-se das cidades que constam somente nos mapas, mas que não existem realmente. É uma ideia daquilo que é aparente, porém não é real. Isso dá uma noção da filosofia que o autor constrói em sua obra. Embora o estilo narrativo foque bastante nas vivências do dia a dia de jovens comuns, a procura existencial que Quentin empreende é algo que o torna um jovem diferenciado. Nada parece ser um limite para que ele descubra o paradeiro de Margo, ainda que seja viajar por longas horas rumo a um local incerto. Por outro lado, para Margo, ele persegue a ideia que criou a respeito dela, uma vez que, na verdade, ele nada sabe da verdadeira e problemática Margo. Vale ressaltar que tal busca não é movida por um desejo passional louco e sim pela vontade de desvendar aquele que é o maior enigma de toda a história: a própria Margo Roth Spielgeman.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:    Cidades de Papel
Autoria:  John Green
Editora:  Intrínseca
Ano:       2013
Local:     Rio de Janeiro
Gênero:  Drama | Aventura | Romance

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 2015: