sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Rei Artur (Allan Massie)



Existem diversas histórias sobre a lenda do Rei Artur. Nessa, Allan Massie reproduz a versão narrada pelo sábio e astrólogo medieval Michael Scott, escrita para seu aprendiz e imperador do Sacro Império Romano, Frederico II de Hohenstaufen (1194-1250). Trata-se do segundo romance de Massie em sua trilogia sobre a Idade Média. O autor é famoso por suas diversas obras, contando com vários títulos sobre os imperadores romanos.
Quando Artur era ainda bem pequeno, Merlim, uma espécie de mago que o instruíra, percebeu seu futuro promissor e retirou-o dos braços de sua mãe, a fim de torná-lo um grande cavalheiro. Artur passara a andar errante pelo mundo e sofrera abusos, sendo o mais marcante aquele que o Cara de Pedra lhe infligira. Também passara por experiências positivas, atuando como artista itinerante, onde conheceu seu amigo Cal, que lhe seria fiel por toda a vida. Desde então, sua história passou a ser marcada por contos heroicos e cercados de misticismo que exaltam seus feitos e a natureza de sua força.
O período de realeza de Artur se inicia com o falecimento do rei da Grã-Bretanha, Uther Pendragon. Este afirmara que se tornaria seu sucessor no trono, aquele que conseguisse remover a espada Excalibur de uma pedra. A tarefa fora impossível para os melhores cavalheiros do império e somente Artur conseguira, mesmo sendo acusado de obter auxílio da magia de Merlim. A Grã-Bretanha estava em guerra contra a invasão dos saxões, liderados pelo Rei Lot. Quando ainda era artista, Artur havia tido um filho com a esposa deste, Morgan Le Fay, que nascera deficiente e se chamava Mordred. Merlim era irmão de Morgan e a havia condicionado aos seus interesses quando pequena, cerceando suas liberdades.  Ela jamais havia sido feliz com isso e constantemente sofria desgostos, razão pela qual mandara acorrentá-lo, como forma de vingança. No entanto, para sua surpresa, como Artur era um rei pacífico e diplomático, diante da oferta do rei saxão Ethelbert de que se casasse com sua filha Guinevere, esse aquiesceu e Morgan fora exilada. Era a oportunidade de reconciliação entre os dois povos e um passo para a restauração do Império de Roma. Guinevere não gostava de Cal e fizera Artur expulsá-lo como bode expiatório de um mal que ela cometera, o que causou grande desgosto ao rei e fez com seu amor por ela começasse a se declinar.
A discussão entre dois soldados sobre qual deles era superior inspirou o Rei Artur na criação da Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda, na qual nenhum membro ocuparia posição superior a qualquer outro. Esta consistia num destacamento de soldados regidos segundo os critérios estabelecidos pelo próprio Rei Artur. Os princípios supremos eram o dever e a disciplina. Mesmo não havendo hierarquia entre ambos, dividiam-se em dois graus: 1º) Classe dos cavaleiros solteiros = embora não praticassem a castidade, era-lhes proibido a união legal. Além do mais, não podiam possuir terras e ficariam à serviço do rei; 2º) Classe dos cavaleiros territoriais = formada por ex-cavaleiros solteiros, possuíam castelos e terras e deviam garantir a paz da região e de seu povo, além de cobrarem impostos e fornecerem soldados em tempos de guerra. O mais famoso dos cavaleiros fora Lancelot que, mais tarde, fugiria com a esposa de Artur, lançando seu reinado em uma grave crise. Além do mais, a partida de diversos cavaleiros para uma busca egoísta que diziam se fundar na lenda do Santo Graal (o cálice que Cristo usara na última ceia e que, acreditava-se, daria a imortalidade a quem o possuísse), provocou a dissolução da Ordem da Távola Redonda. Era o início da tragédia de uma época áurea que o rei construíra.
A notícia da união entre Artur e o imperador do oriente provocou ciúmes no papa. Nesse contexto, o pontífice usou o filho que Artur tivera com Morgan, Mordred, para destruí-lo. E assim Artur seguiu em batalha junto com seus companheiros Gawaine, Agravaine e Parsifal, até que estes foram mortos e, finalmente, o rei.
É interessante notar nessa obra a mescla entre o que é esotérico e o que fatual. O autor consegue exprimir o contexto histórico no qual se dá a trama sem torná-la exaustiva com a citação de datas e lugares diversos. Na história do personagem real se infiltram também os contos lendários da visão de uma época marcada pelo misticismo de uma visão cristã ainda não lapidada pelos ditames da razão. A narrativa torna-se ainda mais rica por retratar alguns traços característicos da sociedade inglesa da Idade Média, como seus códigos de honra, tabus sexuais, ideias religiosas consideradas heréticas, bem como a suntuosidade das batalhas. Allan Massie retrata Artur como uma figura cativante, humanista, sábia, preocupada com os interesses de seu povo e que conservara a honra e a dignidade mesmo diante da morte certa e sua iminente derrota na última batalha contra Mordred. Razão essa porque o todo de sua vida o consagrou com uma lenda venerada em vários povos.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Rei Artur
Autoria: Alan Massie
Editora: PocketOuro
Ano:      2008
Local:    Rio de Janeiro
Série:    Eterna Roma - Vol. II
Gênero: Épico

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Hotel Brasil (Frei Betto)

            Romance de estreia de Frei Betto no gênero literatura policial a trama desse livro vai muito além da simples ficção para imergir profundamente na gama de problemas sociais que afetam o Rio de Janeiro, servindo também como uma amostra de todo o Brasil. Em virtude disso, apesar de ter sido escrito há quase duas décadas, trata-se de uma história completamente atual.
            Localizado na região carioca da Lapa, o Hotel Brasil, administrado por Dona Dinó, era uma moradia de baixo custo, cujos moradores compunham um perfil dos mais diversos. Certo dia, os habitantes são surpreendidos por um crime macabro: Marçal Joviano de Souza fora encontrado decapitado e com os olhos arrancados. De seu paradeiro, sabia-se somente que era envolvido em assuntos sobre pedras preciosas que trazia de Minas Gerais. Levado à polícia, o caso estava sob a investigação do delegado Olinto Del Bosco.
            Del Bosco convocara todos os moradores do hotel para colher seus depoimentos sobre o ocorrido. Nessas oitivas, cada morador é apresentado ao leitor: Cândido, professor e atuante em um movimento de ajuda a menores infratores; Jorge Maldonado, faxineiro do hotel; Marcelo Braga, jornalista inescrupuloso; Rosaura Dorotéia dos Santos, empregada doméstica fascinada em tornar-se atriz de telenovela; Rui Pacheco, assessor de um deputado na Assembleia Legislativa; Madame Laurência, cafetina; e Diamante Negro, transformista. O mais intrigante no caso que fora noticiado pela impressa como do “degolador da Lapa” era que o crime havia sido cometido sem sinais de arrombamento e sem que nenhum dos pertences da vítima fosse subtraído.
            Paralelamente às investigações, o livro também foca na vida do personagem Cândido e seu trabalho com os menores infratores. Ele trabalhava como redator em uma editora e conhecera a antropóloga Mônica Kundali. No decorrer da história um romance seria nutrido e maiores revelações sobre o passado angustiante da antropóloga viriam à tona através de suas cartas que nunca eram enviadas. Cândido também militava na defesa dos menores infratores. Num episódio em que alguns menores fugiram de uma casa de internação à custa do assassinato de alguns funcionários, Cândido vivencia seu lado paternalista com a garota Beatriz (Bia), uma adolescente meiga cuja inocência fora deturpada pela dura vida nas ruas. Ela era alvo de policiais corruptos e criminosos perigosos e Cândido não pouparia esforços para recuperá-la do mundo do crime, mesmo sabendo que seu envolvimento com a menor poderia sujar sua imagem. Para alguém que figurava como suspeito de um crime ocorrido no local onde morava, proteger menores procurados pela polícia era ainda mais incriminador.
            Hotel Brasil é uma história policial que não se limita ao suspense das investigações. Seu objetivo vai muito além, visando tecer uma crítica do contexto social à medida que o pinta nos traços mais verídicos. O episódio em que a polícia usa de tortura para que um dos interrogados confesse a autoria dos crimes é, na verdade, uma marca que o autor quis deixar de sua própria biografia, para que jamais seja esquecida a covardia dos militares durante a ditadura militar. Quem conhece um pouco da vida e obra de Frei Betto, sabe bem sobre a importância do destaque que o ele deixa para os flashes desse período que ele padeceu. Enfim, quando a identidade do(a) verdadeiro(a) assassino é finalmente revelada, tem-se também a constatação de que as aparências de fato enganam e que por mais inocente que possa parecer, há pessoas que cujas consciências são obscuras a ponto de revelarem-se como verdadeiros assassinos em série autores de crimes perfeitos.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Hotel Brasil
Autoria: Frei Betto
Editora: Ática
Ano:      1999
Local:    São Paulo
Gênero: Drama | Policial

sábado, 28 de outubro de 2017

A Missão (Robert Bolt)

Um dos títulos essenciais para quem deseja aprofundar sobre colonização espanhola, esse livro também teve o roteiro adaptado para o cinema em 1986. A produção foi indicada para diversos prêmios e mereceu o Oscar de melhor fotografia.
O escopo da obra são os conflitos entre as coroas portuguesa e espanhola, decorrentes da assinatura do Tratado de Madri em 1750, bem como a consequente expulsão dos jesuítas no século XXVIII. Um dos personagens principais é Rodrigo Mendonza que, durante a adolescência, após a morte do pai, vendera um barco que recebera em herança e deixara o irmão mais novo, Felipe, no Internato de San Fernando. A partir de então, sua vida fora dedicada a arrecadar o valor necessário para custear a permanência do irmão lá. Com isso, Mendonza torna-se um dos mais bem sucedidos mercadores de escravos nas terras colonizadas pelos espanhóis.
O comércio de escravos tinha um cunho conceitual: quando estavam do lado dos portugueses os guaranis eram denominados escravos; em outro plano, quando estavam do lado dos espanhóis eram denominados encomienda e não recebiam salários. Denominações à parte, as coroas ibéricas questionavam a dignidade humana dos indígenas, justificando assim sua dominação não só sobre suas terras como também a destruição de sua cultura. O capitão-geral, Don Cabeza, era o principal defensor daquela prática hostil.
Os jesuítas, na tentativa de cristianizar os índios, visavam também proteger-lhes da crescente dominação dos mercadores, resgatando-lhes o pouco de dignidade que ainda restava. Ainda assim, apostando que todos os homens brancos eram iguais e perigosos, os índios tinham grande resistência em serem doutrinados. Depois que os guaranis deram um sinal aos jesuítas, crucificando um padre e lançando-o às cataratas do Iguaçu, a determinação de Padre Gabriel, um dos componentes da missão de San Carlos, crescera ainda mais. A música seria o grande trunfo para aproximar e iniciar o processo de evangelização, uma vez que o som do oboé era extremamente encantador aos ouvidos dos nativos.
Em um crime passional, Rodrigo Mendonza assassina seu irmão Felipe. Extremamente abalado pelo delito cometido, decide abandonar o comércio de escravos e juntar-se aos padres da missão, buscando heroicamente expiar seus pecados. Nesse contexto, a permanência da Companhia de Jesus naquelas terras já estava duramente ameaçada. O inspetor-geral Altamirano fora enviado pela corte à missão de San Miguel, dirigida pelo superior provincial Padre Ribero, a fim de verificar a viabilidade de implantação do que fora acordado entre Portugal e Espanha pelo Tratado de Madri. Uma vez selado o pertencimento das terras à coroa espanhola, a escravização dos índios estaria assegurada e, consequentemente, os padres jesuítas deveriam ser expulsos, a fim de não significarem um entrave aos planos da coroa. Ainda que contrário ao voto de obediência à Ordem, Mendonza decide organizar uma resistência. Padre Gabriel também decide permanecer na missão, porém de forma pacífica. O resultado disso é um dos maiores massacres que a América Latina já contabilizou nas páginas de sua história.
O desfecho dessa história deixa claras as contradições ideológicas da dominação ibérica no Novo Mundo, evidenciando ainda mais o cunho político de suas intenções. Embora a história narre o papel dos jesuítas como um forte agente descaracterizador da cultura dos guaranis, ao impor-lhes o cristianismo como doutrina, por outro lado são eles os maiores defensores da dignidade humana dos nativos, vistos como animais e seres desprovidos de alma aos olhos dos mercadores. Embora as coroas ibéricas também sejam cristãs, seus atos revelam que, para garantir a dominação e o êxito de seus projetos, o extermínio dos nativos e dos religiosos seria uma justificativa plausível, uma vez que qualquer resistência deveria ser duramente combatida. Nesse contexto, temos ainda a história de Mendonza e sua conversão, a partir de um profundo arrependimento e expiação interior. Seu personagem lembra muito a figura de São Paulo que, de perseguidor dos cristãos, tornou-se o apóstolo que levou a mensagem do evangelho para as regiões mais inóspitas. Sem dúvida, Padre Gabriel e Rodrigo Mendonza são as figuras mais emblemáticas desse romance, demonstrando, através de seu martírio, o caráter triunfal do ideal que defendiam, levado às mais duras consequências, porém imaculadamente fiel aos seus princípios.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:    Missão, A
Autoria:  Robert Bolt
Editora:  Best Seller
Ano:       1987
Local:     São Paulo
Gênero:  Drama | Histórico

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 1986:


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Ladrão de Cadáveres (James Bradley)

A história desse romance se passa em Londres, durante a década de 1820. A julgar pelo título, tem-se a impressão de que a narrativa abordará algum tema de suspense, até mesmo apimentado com um pouco de terror. Contudo, tal expectativa não é correspondida, de forma que a história apresenta-se de uma forma pouco instigante e até mesmo sem um desfecho convincente.
Gabriel Swift é órfão e chega à capital inglesa, onde começa suas aulas com o professor de anatomia Edwin Poll, sob recomendação de seu tutor. Era sua chance de salvar seu futuro, construindo uma carreira sólida no ramo da medicina. As leis daquela época eram bem rigorosas em relação às autorizações para a necropsia, de forma que somente corpos de criminosos devidamente autorizados pela justiça poderia ser submetidos aos estudos de exumação. Nesse contexto, o contrabando era a melhor alternativa para que o ensino da anatomia não fosse prejudicado. Lucan era um dos principais fornecedores desse comércio macabro, saqueando os túmulos dos cemitérios a fim de obter a matéria-prima que era tão importante para os anatomistas. Quanto mais frescos e em menor estado de decomposição os corpos fossem obtidos, maior era o valor que os professores pagavam por eles.
Gabriel não era um aluno vocacionado para a medicina. Seus talentos eram mais desenvolvidos em desenhar as partes que eram dissecadas. No que diz respeito à sua vida amorosa, nutria uma grande afeição por uma prostituta famosa cujo nome era Arabella além de ser um viciado em ópio. Incomodava-o o fato de que tinha de se conformar em dividir a pessoa amada com outros homens, ao ponto de tal paixão levar Gabriel a agredir a pessoa errada, de forma que não lhe restara outra punição senão a dispensa do quadro de discentes do professor Poll. Sem dinheiro e largado pelas ruas, Lucan acaba envolvendo Gabriel em seu ofício macabro de conseguir defuntos e lucrar com esse negócio. Contudo, a obsessão de Lucan pelo lucro levaria a uma onda de assassinatos, no intuito de conseguir vender corpos ainda mais frescos e obter um melhor pagamento com isso. Gabriel se perde no vício e, principalmente, nesse trabalho sujo, perdendo até mesmo sua própria identidade e subvertendo os valores que o ópio ainda não apagara de sua consciência.
Não obstante o resumo anterior seja mais do que suficiente para que um autor de sucesso construa uma história instigante, não é o que acontece com O Ladrão de Cadáveres. Por outro lado, o que temos é uma narrativa cansativa, sem um escopo e um objetivo claros, com personagens confusos e poucos diálogos. Somente a divisão em capítulos curtos é capaz de torná-lo menos monótono. A obra divide-se em duas partes e a segunda tem como objetivo esclarecer um pouco os acontecimentos consequentes da primeira, principalmente depois de Gabriel envolver-se nos assassinatos para sustentar seu vício em ópio. De forma um tanto pior, essa segunda parte deixa a desejar no quesito desenvolvimento e desfecho. Com tantas críticas negativas, talvez possamos tirar bom proveito desse livro se o lermos sob a ótica da reflexão que ele traz sobre algumas dicotomias: vida/morte, vício/prazer, honestidade/corrupção, amor/possessão, etc.. Enfim, é o tipo de obra cuja apresentação visual da capa e o título aguçam o interesse, mas cujo enredo desafia o leitor a investigar a verdadeira mensagem que o autor e principalmente o protagonista ansiaram por transmitir. Trata-se de um livro que trabalha mais com a reflexão ao invés de fornecer um entretenimento leve e divertido.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:    Ladrão de Cadáveres, O
Autoria:  James Bradley
Editora:  Record
Ano:       2013
Local:     Rio de Janeiro
Gênero:  Drama