quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O Clã dos Magos (Trudi Canavan)

A cidade de Imardin era um local dominado por alguns grupos hierárquicos como Ladrões, Magos e favelados. Anualmente, protegidos por um escudo invisível, os magos saiam às ruas para purificá-las dos inúmeros mendigos e vagabundos que se espalhavam copiosamente. Tal ritual, conhecido como o Dia da Purificação era justificado por um juramento que tinham feito ao rei de o servirem e protegerem o reino de Kyralia. Durante um desses episódios, uma garota, Sonea, decepcionada com aquele abuso, atira uma pedra contra o Escudo Protetor, que acaba atingindo em cheio Lorde Fergun. Tratava-se de um fato inusitado e que deixava o clã dos magos em alerta, uma vez que era o indicativo de que alguém detentor dos mesmos poderes que eles estava à solta na multidão. Desse momento em diante, o principal escopo dos esforços deles seria encontrar aquele intruso, uma vez que, caso não aprendesse a dominar os próprios poderes mágicos, poderia significar uma grave ameaça a todos.
Cery e Harrin eram moradores das favelas e companheiros de Sonea. Após o acontecido, ambos ajudariam a amiga a se esconder do clã. Muito embora o ato de Sonea tenha atentado contra a integridade física de um dos magos mais estúpidos do clã, havia ali também outros magos bem intencionados como Lorde Rothen, o qual nutria ideias mais equilibradas e democráticas em relação ao restante da casta. Lorde Rothen queria encontrar a garota não para puni-la ou amedrontá-la e sim para ajudá-la a controlar seus poderes. Desta forma, o livro se desenvolve em uma trama de artifícios de ambos os lados, seja para a captura de Sonea, seja para que ela se veja livre das intenções escusas do Clã dos Magos.
Embora pautado pelo tema da magia, caracterizando a obra como um livro essencialmente de literatura fantástica, direcionado a um público mais juvenil, há que se dar atenção aos temas políticos que são tratados nas entrelinhas. A cidade de Imardin era estratificada em castas hierárquicas e o favoritismo do rei aos magos era evidente, principalmente pelo ritual anual da Purificação. No outro plano estavam os favelados, excluídos, ladrões, cuja existência era uma afronta aos poderes constituídos e, portanto, algo a ser duramente combatido. A inexistência de leis democrática que protejam os direitos dos menos favorecidos faz com que o universo de O Clã dos Magos seja paralelo àquele que foi pintado na Idade Média, quando todo o poder se concentrava nas mãos do rei, usando-o a seu bel prazer. Talvez a casta dos magos possa ser comparada ao papel que a Igreja exercia naquele tempo e, nessa comparação, a figura de Lorde Rothen seria a daqueles personagens que, embora fazendo parte do corpo eclesiástico, tinha ideias mais conciliadoras e buscavam convencer as hierarquias acerca de uma nova forma de exercerem seu papel na sociedade.
Primeiro volume da Trilogia do Mago Negro, o universo criado pela autora em O Clã dos Magos possui traços próprios. A autora investiu em um mundo onde as favelas possuem gírias características e os alimentos também recebem nomes peculiares. Um glossário e um mapa ao final do livro servem como material de consulta e ajudam o leitor a compreender melhor esses traços. Enfim, a história continua no próximo volume, que muito provavelmente, tratará sobre o treinamento de Sonea e a reação dos magos mais estúpidos ao saberem que uma favelada era detentora dos mesmos poderes que eles e, portanto, digna dos mesmos direitos.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Clã dos Magos, O
Autoria: Trudi Canavan
Editora: Novo Conceito
Ano:      2012
Local:    Ribeirão Preto
Série:    Trilogia do Mago Negro - Volume I
Gênero: Suspense

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Éramos Seis (Maria José Dupré)

            De todos os títulos da nostálgica Coleção Vaga-lume, talvez seja esse um dos mais célebres, especialmente porque foi adaptado para telenovelas por quatro vezes, sendo a mais famosa aquela que foi ao ar pela emissora Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), em 1994.
            Nos anos iniciais do século XX, Dona Lola e o marido Sr. Júlio começavam a formar seu núcleo familiar com o nascimento do primeiro filho: Carlos. Haviam saído de Itapetininga e foram morar em São Paulo, levando na bagagem a esperança de melhorias com maiores oportunidades de emprego. Com o passar dos anos, outros três filhos vieram: Alfredo, Julinho e Isabel. Para garantir o sustento de toda a família e conseguir quitar as parcelas da casa nova, Júlio trabalhava em uma loja enquanto Lola atendia a encomendas de doces.
            A obra é inteiramente narrada em primeira pessoa pela protagonista, Dona Lola. Portanto, trata-se de um livro de memórias de um período de mais ou menos vinte anos de sua família. Eventos do cotidiano, amenidades, comemorações familiares e viagens são as memórias boas que ficaram marcadas no espírito de Lola. Contudo, a vida dera duros golpes logo nos primeiros anos da educação dos filhos, sendo os mais doloridos a morte de sua mãe em Itapetininga e a perda do marido, vítima de uma úlcera. Desde então, Lola passa a ser a imagem da mãe guerreira responsável pela criação dos quatro filhos, sendo ajudada principalmente por Tia Candoca e pela vizinha, Dona Genu.
            Após a morte de Júlio, a família passara por sérias dificuldades financeiras. Carlos e Alfredo começaram a trabalhar para ajudar a mãe, como também para que Julinho e Isabel pudessem continuar os estudos. Nessa labuta, a personalidade de cada um vai se exteriorizando: Carlos era o filho estudioso, obediente e dedicado inteiramente à família; Alfredo era rebelde, deixando empregos bons a contragosto da mãe e do irmão, além de envolver-se com grupos que nutriam ideiais comunistas; Julinho era dado aos negócios e tornar-se-ia o primeiro filho a sair de casa, indo morar no Rio de Janeiro por causa de uma boa oferta de emprego; Isabel recebia o maior investimento em termos de educação para que se tornasse professora. Dona Lola era uma mãe tradicional que aconselhava os filhos sobre o que pensava ser o melhor para eles, além de preocupar-se bastante com a imagem social de sua família. Tamanha dedicação, no entanto, não receberia o mesmo grau de correspondência de todos eles. E é justamente por causa dos diversos ideiais da juventude, somado às ciladas da vida, que vemos Dona Lola cada vez mais só, levando a compreender o acertado título dessa obra magnífica: Éramos Seis. Como uma mulher forte, ela representa todas as mães que veem sua família se acabar pouco a pouco, deixando-as solitárias e reféns das lembranças nostálgicas de um passado bom.
            Muito embora o sucesso obtido ao se popularizar com a telenovela, principalmente numa época em que as televisões tornavam-se um eletrodoméstico cada vez mais cobiçado e acessível aos brasileiros, a importância dessa obra resulta também no fato de que ela é uma imagem de grande parte das famílias dos anos 80, 90, com seus dramas e conquistas. Importante observar também que, em um país cujo analfabetismo era bastante alto, “assistir” a um livro era a maneira mais acessível de absorver o seu conteúdo. O fenômeno do êxodo rural ocasionara a migração de diversas famílias do campo para as cidades, em busca de melhores oportunidades. Com isso, tais núcleos familiares viviam nas cidades mas, vez ou outra, visitavam os parentes que ficaram no interior. A educação também era o grande trunfo para garantir o bom futuro dos jovens e, se formar um filho no colegial já era motivo de orgulho, quanto mais vê-lo obtendo um diploma de ensino superior, o que representava até mesmo um novo status social. Vemos ainda a questão dos bens materiais, de forma que um dos medidores do sucesso financeiro era conseguir comprar um veículo. Portanto, se confrontarmos essa história com os sonhos de muitos brasileiros que assistiam encantados a adaptação dessa obra fantástica, veremos a carga de esperança que ela despertava, fazendo com que se tornasse, mais do que um grande sucesso, um ideal a ser vivido.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Éramos Seis
Autoria: Maria José Dupré
Editora: Ática
Ano:      1987
Local:    São Paulo
Edição:  30ª
Série:    Coleção Vaga-lume
Gênero: Drama

Confira o 1º capítulo da novela lançada pelo SBT:


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O Imperador: a morte dos reis (Conn Iggulden)

Após a morte do cônsul Mário, a ação dos perseguidores obriga Júlio a fugir de Roma, deixando a esposa, Cornélia, grávida, ainda que ele não soubesse. Nessa fuga, é capturado por piratas. Porém esse revés acaba por revelar o líder que Júlio tornava-se cada vez mais e ele cumpre a promessa que fizera, de que crucificaria todos os piratas que o fizeram prisioneiro. Após essa vitória, Júlio parte rumo à Grécia para retomar o território ocupado pelo Rei Mitrídates.
Enquanto isso, em Roma, para defender a família e o legado de Júlio, Tubruk arriscara-se numa conspiração perigosa que culminou no assassinato de ninguém mais do que o vitorioso Sila. Roma estava abalada com o fatídico desfecho e os senadores viam nesse fato a oportunidade que esperavam para consolidarem seus planos traiçoeiros e mesquinhos. Em outro plano, o amigo de Júlio, Marco Brutus, fora designado para uma legião e tornara-se um ótimo soldado e líder. Ele tomara o partido da defesa da família de Júlio e, com isso, conseguira restabelecer a Primogênita, legião comandada pelo tio de Júlio, Mário. Por conseguinte, seu envolvimento com a política da cidade eterna também era cada vez maior.
Para espanto do Senado, contra todas as expectativas, Júlio consegue sair vitorioso e derrota o Rei Mitrídates. Após, retorna a Roma, onde colecionava diversos inimigos. Durante sua ausência, seus opositores, em especial o senador Cato, tentaram tirar a posse de diversas de suas terras, dando como certa sua morte, em virtude de seu sumiço. Júlio enfrenta a justiça e consegue brilhantemente provar o ardil que fora tramado contra ele. Consequentemente o ódio por sua pessoa crescia cada vez mais. No âmbito familiar, não obstante, Júlio era como um desconhecido. Cornélia criava sozinha a filha Júlia e ficara chateada quando Júlio ordenou que alguns soldados da Primogênita fizessem a segurança dela e da família. Mesmo tendo seu amor incompreendido pela esposa, Júlio nutria os mais sinceros afetos.
Pompeu e Crasso, antigos aliados de Mário e líderes no Senado viam em Júlio o comandante perfeito para uma nova missão. O Senado havia recebido a notícia de uma rebelião de gladiadores ao norte de Roma, liderada por um ex-legionário cujo nome era Espártaco e seu amigo Crixus. Desta forma, Júlio e Brutus são convocados para sufocar a rebelião e consolidar a supremacia do poder de Roma na civilização ocidental. O exército de escravos era numeroso e, embora formado por guerreiros amadores, vinha sendo muito bem treinado por Espártaco, causando pilhagens em diversas cidades e o terror dos moradores. No entanto, enquanto Júlio combatia os corajosos escravos, em Roma o senado, sob a liderança de Cato, armaria um golpe ainda mais duro contra ele, por meio de um atentado contra a vida de sua família, o bem mais precioso pelo qual Júlio ainda via sentido em defender Roma dos perigos.
Em relação ao primeiro volume da série - Os Portões de Roma -, neste o autor opta por uma narrativa mais focada nos fatos e menos enfeitada pela descrição dos cenários e costumes daquela época. Em relação ao paralelo entre a ficção e a realidade, uma nota história ao fim do livro esclarece o leitor sobre as poucas mudanças que o autor optou por fazer, essencialmente em relação ao parentesco de Júlio César.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Imperador, O
Subtítulo: a morte dos reis
Autoria:    Conn Iggulden
Editora:    Record
Ano:         2004
Local:       Rio de Janeiro
Série:       Imperador, O - Vol. II
Gênero:    História | Épico

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Os Mortos-vivos: sem saída (v. 14) (Robert Kirkman)

A morte de Regina deixara o psicológico de Douglas muito abalado. Cada vez mais o líder da comunidade se conscientizava do seu despreparo para lidar com tamanha catástrofe e liderar pessoas naquele universo hostil. O desconhecido Rick parecia-lhe alguém mais capaz de garantir a paz e segurança, valores cada vez mais significativos principalmente visando o bem dos idosos e crianças. Além do mais, o cotidiano não dava tempo para que os sobreviventes chorassem seus mortos, sendo que cada vez mais hordas de zumbis se acercavam da comunidade.
Outra questão evidente nessa edição são as carências emocionais dos personagens. Mesmo fragilizados pela perda de seus entes mais próximos, a maioria deles não se rende à necessidade de se relacionarem sexualmente com alguém, ainda que isso importe em uma consciência pesada. Afinal, o apocalipse zumbi era um episódio inédito, tanto que derrubava valores socialmente construídos e que já não se mantinham entre quem estava vivo. Os sobreviventes se adaptavam à nova realidade, ainda que seus velhos costumes e preceitos insistissem em ser preservados. Uma nova ordem de moral e ética estava gradativamente sendo constituída, à medida que os atores se adaptavam ao contexto.
Num incidente repentino a cerca se rompera e a comunidade fora invadida por uma manada de mortos. Morgan havia sido mordido e só não se tornou um errante graças à frieza de Michonne com sua espada, decepando o braço ferido do amigo. Contudo, sua recuperação mostrou-se insatisfatória, obrigando Michonne a suportar a perda de mais um de seus amores. Enquanto Rick busca desesperadamente uma solução rápida, Andrea e outros permanecem cercados em uma torre próxima. A solução encontrada por ele novamente era se lambuzar com as vísceras dos zumbis e sair no meio deles, camuflando-se. A princípio parecia que iria funcionar mas, a ansiedade temerosa do garoto Ron faz com que o jovem se torne mais uma vítima a ser devorada pelos famintos mortos-vivos, para desespero de sua mãe, Jessie. A mãe não suportara a perda do filho e também sofrera o mesmo destino trágico dele, por pouco não levando também o filho de Rick para o mesmo infortúnio. Pouco tempo antes, Rick confessara que se fosse necessário escolher entre seu filho Carl e o filho de outra pessoa, não pensaria duas vezes em proteger seu menino. O episódio da morte de Ron e Jessie ilustrara bem essa atitude. Contudo, o já abatido Douglas se lançara em meio aos zumbis para tentar ajudá-los a se salvarem. Com isso, tal atitude desesperada acabara por fazer com que Carl fosse atingido no olho direito por uma bala cuja mira fora pessimamente calculada.
Era o golpe mais doloroso que Rick sofrera desde que acordara no hospital e tomara conhecimento de todo aquele inferno. A morte de Lori já lhe impusera um peso insuportável. Perder seu filho Carl poderia significar o fim de todo o sentido que encontrava em manter a salvo a si mesmo e a seus amigos. O destino da vida de Carl e de parte da existência do próprio Rick estava agora nas mãos da Dra. Cloyd. Por outro lado, as hordas de zumbis se amotinavam cada vez mais, não restando outra alternativa aos duros guerreiros senão se lançarem em uma fúria radical para estraçalharem o maior número de errantes possível.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Walking Dead, The
Subtítulo: sem saída (v.14)
Autoria:    Robert Kirkman / Charlie Adlard
Editora:    HQM Editora
Ano:         2014
Local:       São Paulo
Série:       Mortos-vivos, Os - Volume XIV
Gênero:    Zumbi | Suspense | História em quadrinhos

Confira um trecho da série lançada pela AMC: