sábado, 3 de novembro de 2012

Três Cruzes (Federigo Tozzi)

tres cruzes          Federigo Tozzi nasceu em Siena, Itália, no dia 19 de janeiro de 1883 e morreu em Roma, no dia 21 de março de 1920. De família camponesa teve sete irmãos, todos mortos antes que nascesse. Andou e vagou por várias cidades e atividades. Tentou ser jornalista e político, mas acabou como funcionário da Cruz Vermelha. Tozzi não era um homem que possuía uma vasta cultura, embora fosse considerado um autodidata. A trajetória de sua vida é triste. Não obstante pertencer a uma família pobre, cercada pelo drama de perder os sete primeiros filhos, sua mãe morreu quando ele era ainda bem jovem. Em seu relacionamento com o pai havia uma verdadeira incompatibilidade de gênios, o que o levou a fugir de casa duas vezes. Como forma de manifestar sua revolta, não só em relação a seu pai, como também em relação à sociedade, resolveu aderir ao partido socialista. Mais tarde aderiu ao catolicismo radical, um catolicismo degradado que vê o homem em um estado de pura animalidade.
          A vida afetiva de Federigo também foi problemática e dolorosa. Teve um amor agitado e inseguro com Isola, uma jovem camponesa que trabalhava como criada em uma das fazendas compradas por seu pai, em Siena. Isola fingia amá-lo, enquanto que, na verdade, tinha outros amantes, com um dos quais chegou a ter um filho. Mais tarde Tozzi casou-se com Emma Palagi com quem teve o filho Glauco. Além deste livro ele escreveu: Con gli occhi chiusi (De Olhos Fechados); Ricordi di un impiegato (Lembranças de um Funcionário); um volume de líricas La zampogna verde (A Cornamusa Verde); o poema La città vergine (A Cidade Virgem); Gli egoisti (Os Egoístas); Verga e noi (Verga e Nós); Il podere (A Herdade), sendo este último e Tre croci (Três Cruzes) seus maiores romances. Estes dois livros foram escritos no mesmo ano e o autor aplicou neles tudo o que sedimentou dentro de si em seus trinta e cinco anos de existência.
          A trama do romance se dá na cidade italiana de Siena. Três irmãos – Giulio, Enrico e Niccolò – gerenciam uma livraria cujo dono é o cavalieri Orazio Nichioli. Dos três irmãos Gambi, Niccolò é casado com Modesta. A história engloba ainda, suas sobrinhas Chiarina e Lola.
          Os irmãos Gambi ambicionam uma riqueza que não tem e nem conseguiriam ter por meio de seus talentos. Diante do vencimento de uma nota promissória, Giulio, o mais melancólico dos três, resolve falsificar a assinatura do cavalieri Nichioli, impedindo a falência dos negócios. A tentativa é bem sucedida em um primeiro momento, garantindo-lhes alguns dias de tranqüilidade. No entanto, os três irmãos vivem uma vida agitada e turbulenta, fruto de sua fraude e principalmente a dificuldade de terem sucesso na vida. São ásperos e ignorantes entre si e com os fregueses, bem como para com Modesta. Nesse contexto se encaixa também a paixão adolescente vivida pela sobrinha Chiarina pelo contador funcionário do Domínio Público de Siena, Bruno Pallini, o qual intencionam se casar.
          Na busca por viverem de aparências, os irmãos procuram mostrar que vivem bem. Mas tudo o que ocorre é um constante engano de uma vida ilusória e irreal que levam. Na proximidade do vencimento de mais uma nota promissória, a saída encontrada pelos irmãos é repetir a assinatura falsificada. A princípio, tudo daria certo. Mas uma atitude desconfiada do banqueiro leva Nichioli a tomar conhecimento da farsa. A situação é ainda mais complicada por terem se tornado mal vistos pela população de Siena. No auge do desespero, cada um enfrenta a crise à sua maneira mas os danos os levariam a um fim trágico. Giulio, autor das assinaturas, sente a vida como uma condenação a sentir prazer no martírio, e sua culpa o leva ao suicídio dentro da livraria. Estarrecidos com o fato, os outros irmãos veem-se esmagados pelo crime que juntos tinham tramado. Mesmo assim tentam seguir a vida. Niccolò procura se aproximar da esposa, mas a crise em que estavam e a morte do irmão, o levam ao declínio. Enfim é acometido por um ataque de nervos, levando-o a uma apoplexia reumática fatal. Enrico, que buscava apoio nos amigos da taberna, se sente plenamente desamparado e passa a viver em um Asilo de Mendicância. Tomado por uma crise de gota (doença comum aos três), que lhe havia contaminado completamente o sangue, morre. A homenagem final cabe às duas sobrinhas que compram três cruzes para enfeitar-lhes os túmulos.
          O escritor absorve, envolve e até intimida o leitor diante de sua forma literária: forma esta, suave, poética, real e expressiva. Federigo Tozzi trabalha a matéria humana, os sentimentos humanos com uma habilidade e com uma sensibilidade de mestre.
A história é trágica, comovente, dramática, mas repleta de passagens sublimes que exercem uma força, um domínio irresistíveis e contagiantes, porém, é óbvio que a amplitude e a intensidade até a qual se pode ser persuadido e arrebatado depende de cada leitor. Mas a sublimidade está na excelência e distinção de expressão. A capacidade inventiva vai surgindo devagar no contexto da obra, o toque de sublimidade é arrasador como um raio, revelando todo o poder e toda a clareza do escritor.
          Considerado seu melhor romance, Três Cruzes foi escrito por Tozzi em apenas quinze dias, em 1918. O enredo é carregado de um pessimismo do início ao fim. Trata-se de uma história dramática e profundamente comovente. Mas mesmo nesse clima trágico, a obra é encantadora pela capacidade do autor em compor os ambientes e conectar os fatos. É um relato da experiência da culpa não trabalhada nem assumida, que se traduz numa bela lição de vida para aqueles que, diante de uma crise, sabem refletir pacientemente nas diversas saídas.
 
TOZZI, Federigo. Três Cruzes. Petrópolis: Vozes, 1990. 118 pgs.

Nenhum comentário:

Postar um comentário