domingo, 9 de março de 2014

A Montanha dos Sete Patamares (Thomas Merton)

a montanha dos sete patamares          Em sua obra autobiográfica, Thomas Merton busca delinear os fatos mais importantes de sua vida, enfatizando o seu processo de conversão à Igreja Católica.
          Merton nasceu em Prades, França, em 31 de janeiro de 1915. Três anos depois, nascia seu irmão mais novo, John Paul. Sobre suas fantasias de menino, Merton diz que tinha um amigo imaginário chamado Jack que, por sinal, tinha um cachorro chamado Doolitle.
          Em 1921 morria a mãe de Thomas Merton, vítima de um câncer de estômago, quando ele tinha seis anos de idade. Em agosto de 1925, mudou-se com o pai, cuja profissão era pintor, de volta para França, em St. Antonin, onde foi iniciada a construção de uma casa própria, por iniciativa do pai.
          O primeiro lampejo da graça de Deus lhe viera mais ou menos em 1927 através do encontro com os padres privats em Murat. Nessa ocasião houve uma discussão à respeito de sua falta de fé e a religiosidade dos padres que lhe tocara o coração. Sobre isso diz: "Tudo o que digo é questão de hipótese, mas conhecendo sua caridade, é para mim caso de certeza moral de que devo muitas graças às suas orações e talvez também minha conversão e até mesmo a vocação religiosa" (p. 58). Merton, assim como seu pai, não professava nenhuma fé.
          Na primavera de 1928, mudou-se para a Inglaterra, juntamente com o pai, contando com quase 14 anos completos. Ao completar 15 anos, passou a sentir-se mais livre e a buscar mais insistentemente sua independência. Em 1931, morria seu pai, vítima de uma hiperplasia (tumor maligno) no cérebro.
          A vida de Thomas Merton foi profundamente marcada pela literatura. O contato com os escritos do poeta William Blake e fizeram dizer: "[...] através de Blake eu chegaria um dia, depois de muitos rodeios, à única e verdadeira Igreja e ao único Deus vivo, por meio de seu filho Jesus Cristo" (p. 83).
          Por ocasião de sua passagem por Roma, sentindo-se desolado, Merton se tornou um peregrino das igrejas. O contato com a arte dos templos contribuíra para que vivesse uma experiência espiritual: "Foi em Roma que se formou minha concepção de Cristo" (p. 102). Sua experiência mística tida com a imagem do pai, fora traduzida como um fator edificante para que empreendesse uma primeira busca de Deus e rezasse, ainda que timidamente, nas igrejas católicas.
          Os anos de 1934 a 1937 foram marcados por perdas em sua vida. Mike, um de seus amigos na época universitária em Cambridge, suicidara por enforcamento em 1934; Pop, seu avô, e Bonnemaman, sua avó e esposa de Pop, em 1936 e 1937, respectivamente.
          O contato com a obra de Etienne Gilson The Spirit of Medieval Philosophy produziu em Merton um maior interesse pela doutrina católica e um despertar para a fé cristã. Isso se deu principalmente pelo argumento sobre a "asseidade de Deus", segundo o qual é a capacidade de um ser existir por si mesmo, isto é, existir independentemente de qualquer causa exterior e sem ter criado a si mesmo. A conversão de Merton ao catolicismo se intensificara quando participou pela primeira vez, de uma missa na Igreja de Corpus Christi em 1938. A partir de então, sua vida "começou a ser interiormente cercada pelos jesuítas" (p. 193). Uma vez tendo partido do próprio Thomas Merton a resolução de tornar-se católico, auxiliou-o o Padre Moore, instruindo-o na iniciação cristã (catequese) duas noites por semana, antes de ser batizado.
          No dia 16 de novembro de 1938, aos 23 anos de idade, Merton foi batizado pelo Padre Moore e recebeu, pela primeira vez, a Eucaristia. Sobre a ocasião, diz: "Apesar de todo meus estudo, leituras e conversas, eu me julgava infinitamente pobre e insignificante diante do que ia acontecer em mim. Estava prestes a desembocar na praia, ao sopé da alta montanha de sete patamares de um purgatório mais escarpado e árduo que eu poderia imaginar e não tinha a mínima ideia da subida que me restaria fazer" (p. 201). Durante a preparação para o batismo, Merton sentira o primeiro desejo de ser sacerdote.
          Quando Merton decidiu ir buscar a realização de seu desejo de ser sacerdote, contou com a ajuda de seu grande amigo Dan Walsh. Este lhe falou de várias ordens. Dos redentoristas, por exemplo, faz menção no seguinte trecho: "De resto, minha tia estava disposta a falar o dia inteiro sobre os redentoristas, cujo convento ficara na rua em que morava quando menina no Brooklin" (p. 252). Isso se deu após ter recuperado de uma cirurgia de apendicite e ter passado alguns dias visitando parentes em Douglaston.
          Merton recebeu de Walsh uma carta de recomendação ao Frei Edmundo, um franciscano. Faltando poucas semanas para ingressar no noviciado, sentiu-se questionado por Deus em sua vocação e, após conversar com Frei Edmundo, desistiu: "A única coisa que eu sabia, além da enorme aflição em que estava mergulhado, era que não devia pensar que tinha vocação para o claustro" (p. 270). Deste modo, comprou secretamente os quatro volumes do Breviário pensando em ser um franciscano da Ordem Terceira, revelando seu segredo apenas a Frei Edmundo.
          Após fazer um retiro no mosteiro trapista no Kentucky, Merton sentiu-se incomodado interiormente e voltou a pensar na possibilidade de sua vocação ao sacerdócio: "E então, praticamente a última coisa que fiz antes de deixar Gethsemani foi rezar a Via Sacra e pedir, com o coração saindo pela garganta, na décima quarta estação, a graça da vocação de trapista, se fosse do agrado de Deus" (p. 300). Assim, ingressou no mosteiro trapista de Gethsemani, onde foi iniciado na vida contemplativa.
          O irmão de Thomas Merton foi procurá-lo no mosteiro, onde foi encaminhado para o batismo em New Haven. Era a última vez que se encontrariam: "Foi só então que a expressão de seu rosto mostrou certa possibilidade de estar pensando, como eu, que talvez nunca mais nos veríamos na terra" (p. 361). No dia 16 de abril de 1943 morria o irmão de Merton, John Paul.
          Enfim, em sua autobiografia, Thomas Merton contorna as marcas que levaram à sua conversão e a abraçar sua vocação como trapista. Uma vida como tantas outras, desejosa de ter algo para dedicar-se e realizar-se. Uma vocação sem grandes mistérios, mas com a força mística capaz de superar as inconstâncias e florir mesmo nas circunstâncias mais adversas. Merton traduz em sua história a verdade de quem foi seduzido pela graça de Deus e correspondeu generosamente ao seu amor.


REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:       Montanha dos Sete Patamares, A
Autoria:     Thomas Merton
Editora:     Vozes
Ano:          2005
Local:        Petrópolis
Edição:     
Gênero:     Autobiografia | Espiritualidade

2 comentários:

  1. Qual é mesmo o simbolismo dos "sete patamares"
    Prof. Andreola - lopeseandreola@gmail.com

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