sexta-feira, 10 de outubro de 2014

V de Vingança (Allan Moore / David Lloyd)

"Remember, remember, the 5th of November..."
[Lembrai, lembrai o 5 de novembro...]

            V de Vingança é a reunião de uma série de graphic novels lançadas em 1982/83, cuja história passa no futuro ano de 1997. O foco da narrativa justifica o porquê diversos manifestantes pelo mundo inteiro usam a famosa máscara preta e branca com um largo sorriso. Uma verdadeira incógnita da anarquia e revolução.
            A Inglaterra era um país dominado por um regime totalitário, exercido pelos Homens-dedo, que controlavam a vida da população impondo censura à imprensa, toques de recolher e sistemas de vigilância, bem como perseguindo negros, homossexuais e seguidores de ideologias diversas daquela dominante. Nessa sociedade distópica e coagida, vivia uma garota de nome Evey Hammond que, certa vez, ao sair de casa para um passeio, é abordada pelos homens-dedo que a ameaçam de estupro. Contudo, surge a figura misteriosa de um homem de capa preta e máscara no rosto, que mata os agentes e salva a garota levando-a para seu esconderijo secreto na “Galeria das Sombras”. Sob o codinome de V, aquela figura era a encarnação de um ideal anarquista, completamente alheio à vontade do governo, atacando sua ideologia com atos fantásticos de rebeldia.
            A primeira grande manifestação de V acontece na mesma noite em que encontra Evey. Ambos assistem à explosão do Old Baley, o Tribunal Criminal de Londres, enquanto V interpreta o papel de um maestro, a se divertir com aquela situação. No dia seguinte, o mesmo V invadiria uma emissora de televisão – que por sinal, era onde Evey trabalhava - com o corpo coberto de dinamites. Por meio de uma transmissão ao vivo, convoca toda a população para o 5 de novembro do ano seguinte, que seria o marco da revolução prestes a acontecer. Em sua cola, já estavam os inspetores Dascombe e Gordon, mas V consegue fugir graças à intervenção de Evey. O objetivo final do mascarado era a destruição do parlamento inglês, local simbólico da emanação de todo o regime fascista que roubava a liberdade, acobertada sob o lema “Inglaterra triunfa!”.
            O passado de V e os motivos que o levam a se tornar um justiceiro são pouco a pouco revelados à medida que a trama acontece, embora não de modo claro. Provavelmente, ele fora vítima do sistema totalitário e havia sido usado em testes de uma nova substância química, promovidos às escondidas e que causara a perda de diversas vidas de inocentes. Isso justifica porque o mascarado promove sua vingança também em pessoas específicas. A primeira vítima é Lewis Prothero, locutor do programa de rádio “A Voz do Destino”. Ele havia sido comandante nos campos de concentração de Larkhill em 1993. Curiosamente, quando estava prestes a morrer, recorda-se do misterioso paciente da Sala V, único sobrevivente daquela série de testes laboratoriais. Posteriormente, o Padre Tony Lilliman é envenenado com uma hóstia. Enfim, a Dra. Delia Surridge é morta de modo indolor também por envenenamento. Em todos os casos, os inspetores encontraram uma rosa Violet Carson e o sinal V nos locais dos crimes, traços característicos de seu autor. Mas no terceiro caso, o diário da doutora fora peça fundamental para o entendimento da possível motivação dos homicídios.
            Embora famosa por seus autores a terem incorporado à trama de V de Vingança, a máscara usada pelo anarquista não é uma criação original. A ideia é inspirada no rosto do inglês Guy Fawkes, famoso durante a Conspiração da Pólvora em 1605. Nesse ponto, as duas histórias se cruzam, já que Fawkes planejava invadir o parlamento inglês e explodi-lo, de forma a promover um levante social revolucionário. Essa inspiração ilustra a mensagem principal que V desejava com os incidentes que promovia. As ideias têm poderes inimagináveis quando levadas a sério e o objetivo de tamanho horror era provar à população que o governo é quem deve temer seu povo e não o contrário. Longe de disseminar as tendências revolucionárias, esse livro visa despertar a todos desse sono que as ideologias, a corrupção e a má gerência da máquina pública provocam, fazendo como que o povo deixe de ser o principal destinatário do bem-estar que espera.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:         V de Vingança
Autoria:       Allan Moore / David Lloyd
Editora:       Panini Books
Ano:             2012
Local:           São Paulo
Edição:         1ª
Gênero:       História em quadrinhos | Conspiração

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 2006:


terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Jogo do Camaleão (Marçal Aquino)

Mais um título da clássica coleção de literatura infanto-juvenil, esse livro traz o conflito vivido por um jovem em busca de suas próprias origens, tragicamente absorvido pela rivalidade das gangues metropolitanas. Uma história de muitos disfarces e poucas verdades.
Ricardo é um adolescente de 14 anos que decide embarcar em uma viagem a Belo Horizonte, desejoso de conhecer o próprio pai. Não bastassem suas dúvidas e incertezas quanto ao sucesso em sua jornada, o menino ainda trazia outra preocupação, desde seu embarque em São Paulo: dois homens com atitudes suspeitas pareciam segui-lo. Tentando agir da forma mais natural possível, Ricardo acaba por fazer amizade com um garoto chamado Quico que lhe empresta uma jaqueta para proteger do frio. E assim a viagem segue sem maiores problemas.
Enquanto isso, em Belo Horizonte, duas gangues rivais tinham o mesmo objetivo: apanhar um garoto que vinha num ônibus de São Paulo e trazia uma encomenda importante. Uma delas, sob a chefia do Camaleão – bandido famoso por seus vários disfarces – era formada por Paulão, Valdir, o líder Careca e sua namorada Zezé. A outra tinha como membros Zé Doidão, Vadão e Pimentinha, sob a chefia do Professor, que tinha esse apelido por suas habilidades em iniciar os menores no mundo do crime.
Na rodoviária de BH, o plano é colocado em ação. Contudo, os dois homens suspeitos que eram agentes da Polícia Federal, intervêm na estratégia das gangues, fazendo com que Ricardo seja capturado por engano pela turma do Camaleão, e Quico, que era o garoto certo, fosse levado pela gangue do Professor. Os agentes eram Lima e Murilão, incumbidos de fazerem investigações a respeito de um bandido perigoso, difícil de ser localizado já que se ocultava em suas várias facetas.
Ricardo estava em uma situação extremamente delicada: perdido em uma cidade que não conhecia e preso por bandidos perigosíssimos, capazes de qualquer coisa para livrarem a própria pele. Contudo, em uma manobra desastrada de um deles, Ricardo conseguiria escapar. Mesmo assim, seus problemas não seriam menores, ainda mais após descobrir que o único endereço que tinha do pai era inexistente.
A obra de Marçal Aquino aborda questões importantes dos problemas enfrentados pelas grandes cidades. A figura do Camaleão como um bandido de vários disfarces é um recurso inteligente, tornando o enredo muito interessante e o final surpreendente, embora se torne previsível no desenvolvimento da narrativa. Uma história policial que ocupa lugar de destaque entre os clássicos da Coleção Vagalume.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:        Jogo do Camaleão, O
Autoria:      Marçal Aquino
Editora:      Ática
Ano:           1997
Local:         São Paulo
Edição:       1ª
Série:         Coleção Vaga-lume
Gênero:      Drama | Policial | Suspense

sábado, 20 de setembro de 2014

The Walking Dead: a ascensão do governador (Robert Kirkman / Jay Bonansinga)



            O universo dos zumbis sempre foi uma das características mais assustadoras das produções cinematográficas do gênero de terror. Antes restrito a uma localidade (casa, ilha, cemitério) a tragédia de uma contaminação ganhou tamanha importância que foi reproduzida para os telespectadores até mesmo como um fator que poderia causar o extermínio da humanidade com o consequente fim da civilização. Esse é o universo no qual esta obra é constituída, de forma que os poucos sobreviventes contam com as chances remotas de escaparem ilesos.
            Há poucos dias uma contaminação dizimara a população da cidade de Atlanta. Não bastasse a interrupção de milhares de vidas, o mal havia criado um exército de mortos-vivos em decomposição, famintos e extremamente agressivos. Nenhuma notícia sobre aquela carnificina e os poucos recursos de telecomunicações disponíveis informavam apenas acerca da existência de um campo de refugiados.
            Em meio a todo o caos, um pequeno grupo se apegava as suas improváveis chances de sobrevivência: Brian Blake e seu irmão Philip, cuja esposa, Sarah, havia falecido; Penny, uma garotinha filha de Philip; Nick Parsons e Bobby Marsh, amigos dos Blake. Desses, Philip tinha uma personalidade forte voltada à liderança do grupo, enquanto seu irmão se assombrava pelo medo e fraqueza. Entre eles reinava o clima de assombro diante de toda a catástrofe, bem como de total insegurança onde quer que estivessem. Não fosse a frieza de Philip, todo o grupo teria sido dizimado, tamanha a hostilidade dos zumbis.
            Em um mundo iminentemente devastado, a obra enfoca outra questão: a crise do sentimento de fraternidade. Alguém que havia sido um ente querido durante a vida, tornara-se um ser letal após se contaminar, uma criatura errante a vagar em busca de outra vítima. Aqueles que não foram capazes de resistir ao sentimento de apego acabaram sucumbindo e tornando-se mais um deles. Contudo, somente vencendo a pena e destruindo o crânio das criaturas da maneira mais covarde e atroz, a ameaça poderia ser destruída.
            Mesmo que incertos naquela civilização apocalíptica, o grupo liderado por Philip vagaria em busca do campo de refugiados. No caminho, um outro grupo seria descoberto: David Chalmers e suas filhas April e Tara. Contudo, tal encontro traria conflitos que poriam em xeque o objetivo de sobrevivência comum a todos.
            The Walking Dead iniciou com histórias em quadrinhos que foram adaptadas para um seriado televisivo de sucesso. A história contada nessa obra revela um lado que o seriado não retrata: a ascensão de uma das figuras mais emblemáticas, crueis e controversas da história, que é o governador. Para Philip, a manutenção da própria vida só tinha sentido se fosse capaz de proteger a de sua filhinha Penny. Portanto, o fio do novelo da história se desenrola a partir do momento em que Penny é terrivelmente ameaçada. Por outro lado, os sentimentos de incapacidade de Brian acabam por alimentar uma coragem nunca antes manifesta em toda a sua vida. O clima catastrófico de Atlanta faria ascender uma ameaça tão terrível quanto os próprios errantes espalhados pelas ruas.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:       Walking Dead, The
Subtítulo:  a ascensão do governador
Autoria:     Robert Kirkman / Jay Bonansinga
Editora:     Galera Record
Ano:           2012
Local:         Rio de Janeiro
Edição:       6ª
Série:         The Walking Dead - Livro I
Gênero:     Zumbi | Suspense

Confira o trailer da série lançada em 2010:

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Armadilha Aérea (Michael Crichton)



           A história tem mostrado que, sempre que ocorrem acidentes graves de grande repercussão na mídia, logo vem à tona as diversas irregularidades que, caso fossem sanadas, poderiam ter evitado o desastre. Desta forma, ficam claros os interesses das empresas que diversas vezes privilegiam muito mais o marketing do que a qualidade e segurança dos serviços prestados. É exatamente esse contexto que Armadilha Aérea (Airframe, no texto em inglês) vem tratar, recheada de uma trama de suspense intrigante que o autor cria.
          A raiz de toda a história é o acidente grave ocorrido com a aeronave N-22 da Norton Aviões, em que havia 270 pessoas a bordo, resultando num saldo de 3 mortos, 2 paralíticos, um copiloto em coma e 57 feridos. No entanto, o maior agravante da situação é que o modelo N-22 já havia sido palco de nove acidentes nos últimos anos. O piloto da aeronave John Chang, que comandava o avião naquela rota de Hong Kong a Denver, era reconhecido por sua excelência e conhecimento na execução de seu trabalho, o que afastava a presunção de falha humana, a um primeiro momento.
        Casey Singleton, a vice-presidente da Norton em Barbank, ficara encarregada de investigar o que poderia ter provocado o desastre com o voo Transpacific 545. Chefiada pelo diretor John Marder, a companhia era responsável pela linha de montagem dos aviões, por meio de designs aerodinâmicos cuidadosamente elaborados, principalmente em relação às asas, as quais eram o principal mecanismo de estabilidade e funcionamento do avião. Sendo assim, após reunir as pistas preliminares, Casey trabalha com três hipóteses prováveis: 1ª) falha de comandos dos slats (estruturas de sustentação das asas que, juntamente com os flaps, garantem estabilidade); 2ª) falha do piloto automático; 3ª) falha do piloto, o superexperiente John Chang. Uma possível turbulência poderia ter originado uma situação de emergência, mas a aeronave apresentava indícios de uma possível falha mecânica ou de imperícia do piloto. Além do mais, a investigação de Casey descobriria que a aeronave apresentava peças falsificadas, o que poderia ser um agravante, mas não necessariamente o motivo de um problema mecânico.
          Em outro plano dos fatos, o acidente com o N-22 poderia trazer sérias consequências para um acordo comercial milionário da Norton com a China. Dessa forma, a descoberta de uma falha na linha de montagem ou mesmo da utilização de peças falsificadas, denunciando a falta de fiscalização e controle de qualidade e segurança poderia afetar diretamente os interesses financeiros da companhia, levando-a a falência. Porém, a mesma empresa era reconhecida pela rigidez de suas normas de garantia e as investigações apontavam cada vez mais que nada anormal acontecera ao funcionamento da estrutura do avião. Paralelamente a isso, a repercussão do acidente na mídia maculava cada vez a imagem da empresa no cenário mundial, veiculada principalmente pelas comprometedoras matérias produzidas pela jornalista Jennifer Malone e pelo apresentador sensacionalista Martin Reardon, ambos da Newsline. Visando provar empiricamente que o N-22 era um “expresso da morte” os repórteres da Newsline obrigam a Norton a aceita-los a bordo no teste experimental com a mesma aeronave acidentada na região do Arizona. Tal teste provaria a (in)segurança do avião.
        Michael Crichton já é um autor célebre por suas publicações de O Parque dos Dinossauros e O Mundo Perdido. Em Armadilha Aérea ele usa mais uma vez seu potencial de criar uma narrativa de suspense curiosa e empolgante. É o tipo de autor que consegue prender a atenção de seu leitor, de forma que este se sinta como um personagem coadjuvante à própria história. Dessa forma, Armadilha Aérea se desenvolve como um interessante dossiê das armadilhas do espaço aéreo norte-americano.


REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:        Armadilha Aérea
Autoria:      Michael Crichton
Editora:      Ballantine Books
Ano:           1997
Local:         New York
Edição:       1ª (texto em inglês)
Gênero:      Suspense | Ficção científica