domingo, 12 de março de 2017

O Deus Oprimido: em busca de uma espiritualidade da inserção (Benjamin González Buelta)

deus oprimido, o          Nos tempos atuais, em que o avanço do capitalismo, o declínio dos valores tradicionais, o crescente consumismo e espírito de competitividade crescem sempre mais, uma pergunta se coloca aos cristãos, especialmente aos vocacionados à vida religiosa: como se inserir em tal contexto, vivendo a partir de uma adesão radical ao reino pregado por Jesus Cristo? A crescente massa de oprimidos, sem voz e nem vez, vem como o grito de um Deus que está sendo marginalizado, excluído, colocado à parte, mostrando-se na pessoa do outro: um Deus Oprimido. A partir dessa realidade questionadora, o padre Buelta busca, à luz de seus 18 anos de experiência, convivendo com os miseráveis de Guachupita na República Dominicana, tecer uma análise de conjuntura da pastoral da Igreja, buscando os sinais da coerência de seu discurso com sua prática na opção preferencial pelos pobres.
          A pastoral entre os pobres parte do reconhecimento de que é o próprio Deus presente no mundo, que caminha com o povo na história, não como espectador, e sim como vítima dos mecanismos de morte. A partir daí, uma provocação aos religiosos: “Podemos nós entender o Evangelho, lendo-o desde nossa posição privilegiada no sistema, a partir do poder, da segurança, da instituição...?” (p. 19). A alternativa da inserção surge como um êxodo em direção aos oprimidos, na busca por encontrar o próprio Deus, que se encarnou entre os pobres, viveu como pobre e morreu pobre. Por isto, quer significar uma aceitação dos desafios contra a realidade de injustiça, dos dominadores e das ideologias. Inserir é também comungar da sabedoria, cultura e fé do povo, na busca de opções concretas que realizem o seu projeto na história. Trata-se de cultivar uma espiritualidade celebrativa, atenta às necessidades concretas, que produziriam a libertação da opressão. É ser sinal de contradição, frente ao curso da humanidade. Enfim, é um transcender de uma experiência meramente individual e narcísica de Deus, para uma experiência coletiva e libertadora, contemplando a Deus, na caminhada com seu povo. A realização concreta desse projeto leva à percepção de um reino de Deus que já está presente no mundo, pelas sementes de esperança que surgem, mas ainda não completamente, em virtude das injustiças e desigualdades entre as pessoas.
          Contemplar a Deus na história é se comprometer com a vida. Nem uma práxis que se rotiniza no ativismo exacerbado, nem uma espiritualidade que se fecha sobre si mesma, sem inquietar-se diante de quem mais sofre. A inserção é a opção por viver como o povo, na busca de implodir em seu meio a mensagem de amor e fraternidade de Jesus, na luta pela justiça.
          Destinado aos que fazem do compromisso com o oprimido o escopo da vivência radical e engajada da boa-nova do Evangelho, esta obra vem reacender essa opção fundamental. A urgência de uma pastoral coerente e eficaz é a demanda da Igreja, frente à realidade que se descortina sempre mais desafiadora. A vida religiosa é chamada a se desinstalar de seus confortos e se inserir entre os que são o alvo de seu discurso, rosto humano e oprimido de um Deus que caminha com seu povo, em Jesus Cristo.
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Deus Oprimido, O
Subtítulo: em busca de uma espiritualidade da inserção
Autoria:    Benjamin Gonzáles Buelta
Editora:    CRB
Ano:         1989
Local:       Rio de Janeiro
Gênero:    Espiritualidade | Religião

quinta-feira, 2 de março de 2017

O Escaravelho do Diabo (Lúcia Machado de Almeida)

            Famoso durante os anos 80/90 pela já aclamada coleção de que faz parte, o título de Lúcia Machado de Almeida ganhou uma adaptação cinematográfica em 2016.
            Alberto era um estudante de medicina que, certo dia fora surpreendido pela visão do irmão Hugo assassinado dentro de sua própria casa, com uma espada cravada no coração. Mais curioso ainda era que, poucos dias antes, Hugo recebera um embrulho pelos correios que continha um besouro fincado em uma rolha de cortiça. Intrigado com aqueles acontecimentos, Alberto fizera uma pesquisa sobre o estranho animal e constatou que seu nome científico remetia claramente ao objeto que ceifara a vida do irmão. Mesmo desconhecendo qualquer atrito de Hugo com quem fosse, o caso fora levado à polícia para investigação do dedicado inspetor Pimentel.
            Poucos dias depois uma nova morte assustara os moradores da pequena cidade onde Alberto vivia. O filho mais novo da dona de uma pensão, a irlandesa Clara O’Shea, morrera envenenado ao tomar um comprimido para um resfriado. Curiosamente o garoto também recebera um escaravelho de presente dias antes. O embrulho macabro que o assassino enviava às suas vítimas já era o suficiente para que Pimentel e Alberto traçassem um modus operandi daquele serial killer em potencial.
            Com o passar do tempo um novo fato acionara o alerta daqueles que achavam tudo se tratar de mera coincidência: a artista Maria Fernanda fora tragicamente assassinada durante um concerto. Nas três mortes, além do recebimento do inseto outra característica comum intrigava os investigadores: todas as vítimas eram ruivas. Com isso a polícia resolvera escoltar os ruivos que ocupavam posição de destaque na cidade – como o Padre Afonso – até porque novos casos de assassinato vinham acontecendo frequentemente. Inclusive, Rachel Saturnino, uma amiga íntima de Alberto, havia sido atacada em um local público e só não sofrera destino igual ao dos outros porque o estudante surgira repentinamente para salvá-la.
            A ação do “inseto” já levava a polícia a levantar suspeitas. Dentre as principais estavam os trabalhadores e moradores da pensão de Clara O’Shea, onde seu filho Clarence fora envenenado. Especialmente o cozinheiro e a camareira, além de Verônica, uma moradora por quem Alberto nutria certo romance. Verônica era suspeita uma vez que os policiais haviam encontrado um embrulho cheio de besouros debaixo de sua cama. Além do mais, quando novas mortes ocorriam algum dos suspeitos sempre estavam presente ou próximos às cenas dos crimes. Porém, tamanha desconfiança levara Verônica a se afastar definitivamente de Alberto, já que o rapaz era o braço direito do inspetor nas investigações. E assim o caso se arrastou por anos a fio, até que o assassino fez sua última vítima (e por sinal, o último ruivo da cidade) sendo esta o próprio Padre Afonso.
            Quando o caso já havia sido arquivado por falta de elementos que identificassem o autor dos crimes, após se formar e atuar no ramo da medicina, Alberto tivera um encontro revelador. Tudo ocorrera durante um congresso em que um conceituado cardiologista revelara uma história intrigante que definitivamente colocava um fim a toda aquela onda de mistério que pairava sobre os habitantes da cidade natal de Alberto por tantos anos... A revelação final mostraria os perigos de uma mente psicótica no seio da sociedade.
            A autora de O Escaravelho do Diabo consegue construir uma trama de mistério digna das grandes produções do gênero, como aquelas de grandes nomes como Arthur Conan Doyle ou Clarice Lispector. Mesmo com capítulos curtos e uma leitura fluida a história não se perde em narrativas apressadas, sem riqueza de detalhes e com fatos previsíveis. Ao final, o que se tem é uma história rica em suspense, sem heroísmos floreados, mas com um desfecho digno dos grandes casos policiais.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Escaravelho do Diabo, O
Autoria: Lúcia Machado de Almeida
Editora: Ática
Ano:      1982
Local:    São Paulo
Série:    Coleção Vaga-lume
Gênero: Suspense | Policial | Drama

Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 2016:


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Augusto (Allan Massie)



            Dando continuidade à série de romances históricos iniciada com César  e seguida por Marco Antônio e Cleópatra, Allan Massie traz agora as memórias do imperador Caio Otávio Turino, que depois tornou-se Caio Júlio César, e finalmente foi popularizado como Augusto, o Imperador Deus.
            A história é narrada ao estilo de memórias pelo próprio Augusto, a seus netos Caio e Lúcio. Trata-se de uma autobiografia cuja cópia fora descoberta no Mosteiro de São Cirilo Metódio, na Macedônia, em 1984. Dividia em duas partes, a primeira inicia com a notícia do assassinato de César e termina com o suicídio de Marco Antônio e Cleópatra, quatorze anos depois. Já a segunda, narra as diversas batalhas pela consolidação do Império Romano e possui um tom mais psicológico, frequentemente focando nas sensações do imperador, frente ao inevitável envelhecimento e proximidade da morte.
            Augusto, herdeiro e filho adotivo de César, juntamente com Marco Antônio e Lépido formaram o Segundo Triunvirato e logo se puseram à caça dos assassinos do Ditador, especialmente Marco Júnio Bruto e Caio Longino Cássio. A vitória na Batalha de Filipos fez com que o governo do Império Romano fosse compartilhado entre os três. Porém, interesses conflitantes logo, logo provocariam a dissolução do triunvirato, culminando no exílio de Lépido e no suicídio de Marco Antônio. A partir de então, Augusto transferiria o poder governamental de Roma para o Senado, mas manteria seu poder autocrático sobre a República, como um ditador militar.
            Em suas memórias, Augusto enfatiza a importância dos laços criados com familiares, amigos e companheiros. Entre esses, os que mais se destacam são Caio Cílnio Mecenas (Mecenas), seu conselheiro mais próximo; Marco Vipsânio Agripa (Agripa), maior general e, depois, marido de Júlia (portanto, seu genro); Públio Virgílio Maro (Virgílio), poeta e mentor. Augusto também fora casado três vezes, com Cláudia, Escribônia e Lívia, respectivamente. Sua última esposa recebe um elogio à parte do imperador, ao refletir sobre o que significara sua vida e reconhecer que o apoio de Lívia fora crucial, especialmente nos momentos mais decisivos. Tamanha afetividade com seu círculo social, também desgastou sua vida, especialmente pelos familiares e amigos que teve de sepultar: Virgílio, Agripa, Mecenas, Caio e Lúcio, esses últimos, seus netos, a quem tais memórias foram dedicadas. Das memórias do imperador Augusto, vale destacar um trecho que talvez condense suas impressões sobre o significado da vida e do viver: “Como é repleta de ilusões a nossa jornada sobre a Terra. É como se caminhássemos por uma trilha cortada no meio de uma floresta sombria. Porque permanecemos na trilha e conseguimos avançar, temos a impressão de que controlamos o nosso destino. Mas a floresta em volta de nós continua sendo desconhecida e hostil, e ignoramos os perigos que espreitam a pouca distância da trilha” (p. 305). Já no fim da vida, Augusto adotara o enteado Tibério e desejava que ele governasse Roma. Porém, desejoso de uma vida tranquila, Tibério recusara. Mesmo assim, o destino faria com que ele de fato se tornasse seu sucessor.
                Augusto foi o soberano com mais tempo de reinado sobre Roma. É dele a célebre frase: “Encontrei uma Roma de tijolos e deixo uma Roma de mármore”. Com essa sequência da Série Senhores de Roma, Allan Massie não economiza técnica e imaginação para trazer à tona a vida de um dos mais poderosos soberanos da história da humanidade.

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:   Augusto
Autoria: Allan Massie
Editora: Ediouro
Ano:      2001
Local:    Rio de Janeiro
Série:    Senhores de Roma, Os - Livro III
Gênero: Épico

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Os Mortos-vivos: fomos longe demais (v.13) (Robert Kirkman)

A tranquilidade aparente da nova comunidade não deixa Rick se acomodar. Além disso, as experiências passadas cada vez mais lhe confirmavam que naquele mundo destroçado ninguém era confiável. Diante disso, Rick decide se precaver, conseguindo armas às escondidas para si e para seu grupo, mesmo frente a resistência de alguns que viam aquele lugar como um retiro seguro onde poderiam reconstruir suas vidas arruinadas.
Cumprindo a tarefa de que foram incumbidos, Gleen e Heath saem dos limites dos muros para conseguirem novos suprimentos. O chinês relembra os tempos em que dependia de suas habilidades de parkour para sobreviver. Em um beco abarrotado de zumbis, a dupla avista alguns homens encurralados que, para conseguirem escapar, entregam um de seus comparsas ao apetite voraz dos mortos-vivos. Para evitar maiores problemas, Gleen e Heath decidem pegar o que precisam na farmácia e irem logo embora.
O tema da religiosidade retorna na pessoa do Padre Gabriel que confronta sua espiritualidade com o seu novo papel naquela comunidade. Consequentemente, seu dever ético faz com que ele advirta o anfitrião da comunidade de que aquele novo grupo que acabara de chegar não era nada confiável, uma vez que já tinha cometido coisas terríveis. Na verdade, o padre ainda vivia atormentado pela culpa de ter deixado os fiéis à mercê dos errantes e não admitia que aquele grupo fosse capaz de qualquer coisa para garantir a sobrevivência dos que amavam.
Em suas constantes patrulhas, Rick desconfia que Pete, um dos moradores da comunidade, vem espancando sua mulher e filho. Movido pelos fantasmas do passado, o guardião da comunidade decide intimidar o homem, ainda que sob as advertências de Douglas. Contudo, Rick perde o controle e seu instinto de proteção acaba por deixar evidente aquilo que o Padre Gabriel havia alertado a Douglas. Graças à intervenção de Michonne, o conflito não tem consequências mais drásticas. Contudo, o episódio deixa um clima de instabilidade na comunidade, forçando-os a tomarem alguma decisão à respeito dos dois envolvidos na confusão. Não bastasse a ameaça que vinha de fora, era necessário tratar também a ameaça que vinha de dentro. A morte da esposa de Douglas seria a gota d’água para que Douglas se convencesse da medida severa que deveria ser tomada.
Os acontecimentos desse volume deixam evidente para os moradores da comunidade duas verdades: estavam cercados por perigos que não tinham desenvoltura suficiente para lidar e aquele grupo recém-chegado tinha vivido experiências que os fortalecera na luta pela sobrevivência. Douglas estava em um impasse entre acatar as alegações do Padre Gabriel ou aproveitar todo o arcabouço que o grupo de Rick trazia para somar naquela sociedade. Afinal, a prudência nunca era o bastante quer se tratando dos mortos, quer se tratando dos vivos.
A edição #75 apresenta um conteúdo especial. Um adendo que contém uma entrevista com Robert Kirkman e algumas revelações sobre suas pretensões com a série. O mais revelador é que a partir dessa edição comemorativa, o autor afirma que a sequência será inebriada de novidades, às quais ele afirma serem ainda muito piores e impactantes do que tudo o que aconteceu até agora. Que tal algumas páginas coloridas explicando a pergunta que não quer calar: o que deu origem a toda a devastação?

REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:      Mortos-vivos, OS
Subtítulo: fomos longe demais (v.13)
Autoria:    Robert Kirkman / Charlie Adlard
Editora:    HQM Editora
Ano:         2014
Local:       São Paulo
Série:       Mortos-vivos, Os - Volume XIII
Gênero:    Zumbi | Suspense | História em quadrinhos

Confira um trecho da série lançada pela AMC: