domingo, 9 de novembro de 2014

Luciana Saudade (Carlos Heitor Cony)



            Os conflitos da complexa e explosiva fase da adolescência vêm à tona nesse pequeno romance de Carlos Heitor Cony. Uma temática que retrata bem o lado sonhador dos jovens, bem como aquilo de que são capazes para perseguirem seus sonhos.
            Luciana Torres é uma adolescente de 15 anos, comum a todas as outras em sua rotina de estudos, diversão e convívio familiar. Em sua escola fora anunciada a realização de um concurso de música, no qual os estudantes poderiam demonstrar seus talentos. Como amava cantar, Luciana logo se empolgou e foi apoiada por sua super-amiga Márcia. Era uma oportunidade valiosa para ser vista com outros olhos pelos alunos de sua escola, ainda mais porque o vencedor teria a oportunidade de se apresentar no Festival Internacional de Música Jovem, desta vez, no Maracanãzinho. Contudo, Luciana sentia-se ameaçada pelo prestígio que outra aluna tinha no colégio. Beth Alencastro era bonita, afinada e rica, de forma que atraia mais os olhares, principalmente dos garotos. Mesmo assim, Luciana não perderia a oportunidade de desbaratá-la e se consagrar como a grande campeã.
            A música escolhida por Luciana foi Felicidade, de Lupicínio Rodrigues. Porém, às vésperas da apresentação, a garota fora acometida por uma dor de garganta, ameaçando que tudo fosse arruinado. E no grande dia, o resultado não podia ter sido pior: Luciana desafinara de tal forma que o fã-clube de Beth se divertiu com as vaias. O sonho de uma carreira brilhante acabava de ser humilhado e Luciana sofria a primeira grande derrota de sua vida. Nem mesmo o consolo de Márcia e do amigo Raul aliviava tamanha dor.
            Os dias se passavam e, certa vez, Luciana encontrou um senhor muito pobre e sua filha em uma praça, a entoar alguns acordes no violão. O velho Inácio encantava Luciana de tal forma que ela voltou várias vezes para conversar com ele, mesmo sob severas recomendações de sua mãe, para que não falasse com estranhos. O velho cantava uma música de sua própria autoria chamada Saudade, que para Luciana era uma das mais belas que já ouvira.
            O Festival Intercolegial de Música Jovem estava próximo e trazia a novidade de que, além dos representantes de cada colégio, as inscrições seriam abertas aos demais interessados. Era uma nova chance para Luciana e ela queria encantar o público com a música do velho Inácio, tendo-o como companheiro no palco. Embora sua vontade fosse capaz de mudar a vida de Inácio e sua filha para sempre, caso vencesse o concurso, Luciana teria de contornar a proibição de sua mãe para participar do festival. Era uma oportunidade que poderia consagrar o sonho solidário de Luciana ou amargá-lo com outra derrota ainda mais fracassada.
            A obra de Cony é uma grande inspiração para a juventude desacreditada dos tempos atuais. A protagonista traduz a imagem do jovem brasileiro: pessoa comum com sonhos grandiosos. O diferencial é a atitude de Luciana, que a faz ir em busca de sua meta, não importando os esforços que teria de empregar e menos ainda as forças contrárias. Isso faz de Luciana Saudade uma leitura altamente recomendável para aqueles que estão no início do eterno processo de tomarem suas vidas nas próprias mãos.  
 
REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:         Luciana Saudade
Autoria:       Carlos Heitor Cony
Editora:       Ediouro
Ano:            1998
Local:          Rio de Janeiro
Edição:        17ª
Gênero:       Drama | Motivação

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O Mágico de Oz (Lyman Frank Baum)


          Era uma vez uma garotinha que vivia tranquilamente junto a seus tios Emma e Henry em uma fazenda no Kansas (EUA). Subitamente, um poderoso furacão atinge sua residência e ela e seu cachorro de estimação, Totó, veem-se transportados para um mundo mágico onde seres inanimados ganham vida e animais são personificados. É assim que inicia a história de um dos mais famosos contos de todos os tempos, escrito pelo norte-americano Frank Baum, por volta de 1900. Uma série que não se esgota em um único volume, mas que, por seu encantamento, ganhou continuações promovidas pelos fãs, mesmo após a morte do criador.
            As figuras delicadas e o estilo narrativo simples tornam essa obra uma das histórias mais lidas e contadas às crianças de todos os tempos e lugares. Após se ver apartada de seus tios, Dorothy é saudada por alguns anões da terra de Oz, gratas por ela ter destruído a malvada Rainha do Leste, quando a casa a esmagou. Sem entender nada do que aquilo significava, a menina inicia uma busca incansável para que pudesse regressar o mais breve a sua casa. No caminho encontra outros personagens com desejos próprios: um espantalho desajeitado, cujo maior sonho era ter um cérebro; um lenhador de lata, sonhador em um dia ter um coração dentro do peito oco; um leão, que não amedrontava a ninguém e, por isso, desejava ganhar coragem. Talvez um dos pontos mais marcantes de toda a história, é que esses personagens serão fiéis a seus desejos durante toda a história.
            Dorothy faz amizade com aquele trio inusitado e juntos tentam encontrar o caminho que leva à Cidade das Esmeraldas. Dizia-se que lá vivia um mago poderoso chamado Oz, que era tão grande e temível que poderia realizar qualquer desejo que fosse. No trajeto encontram diversos desafios que lhes ensinam o valor e a importância da cooperação mútua para superá-los. Ao chegarem à Cidade das Esmeraldas, são recebidos pelo grande Oz, um de cada vez, de forma que o veem sob formas distintas: uma enorme cabeça (Dorothy), uma linda dama (Espantalho), um monstro terrível (Lenhador de Lata), uma bola de fogo (Leão). Contudo, para que seus desejos se realizassem, havia a condição de que fossem e destruíssem a temida Bruxa do Oeste.
            O grupo parte novamente e, sem querer, Dorothy destrói a Bruxa do Oeste ao jogar-lhe água. Retornando à morada de Oz, descobrem que aquele que era um mágico respeitado naquele reino, não passava de um charlatão que conseguira enganar a todas as pessoas e inclusive a eles. Além disso, quando prometera atender ao pedido de Dorothy ele foge em um balão, desfazendo as esperanças da garota. Entretanto, em Oz havia um encanto lançado em alguns Macacos Alados que vinham três vezes em socorro de quem os invocasse. Restaria a Dorothy e seus amigos serem sábios para finalmente alcançarem seus sonhos.
            O mundo de Oz é cheio de criaturas mágicas com papeis e características definidas: anões, ratos, macacos alados, bruxas, duendes, animais, etc.. Tamanha diversidade aliada ao fato de que a garota lida de forma bastante natural com essas novidades, fazem com que o leitor se questione se Dorothy de fato estaria vivendo aquelas aventuras ou tudo seria fruto da mente sonhadora da menina.
Além da trama cheia de reviravoltas e aventuras, O Mágico de Oz possui alguns aspectos paradoxais interessantes: o Espantalho, que desejava um cérebro, é o que fornece as melhores ideias ao grupo; o Lenhador de Lata, que desejava um coração, é o que mais se emociona nas diversas situações; o Leão, que desejava ter coragem, é o que protege o grupo nas ocasiões de perigo. Isso mostra que esses personagens já possuíam aquilo que buscavam, mas passam a acreditar que alcançaram somente após o mágico de Oz lhes fornecer algum sinal visível. Desta forma, o livro também transmite uma mensagem de autoencorajamento, tornando-o um instrumento útil para quem deseja, ao mesmo tempo que acompanha as aventuras de Dorothy, realizar uma viajem para dentro de si.


REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:         Mágico de Oz, O
Autoria:       Lyman Frank Baum
Editora:       Hemus
Ano:            1984
Local:          São Paulo
Edição:        1ª
Gênero:       Fábula

 Confira o trailer da adaptação para o cinema lançada em 2014:


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Pensamentos (Blaise Pascal)



 “O coração tem suas razões que a razão não conhece.
 Sente-se isso em mil coisas. 
É o coração que sente Deus e não a razão.
Eis o que é a fé perfeita: Deus sensível ao nosso coração”  
(p. 144)

            Inventor da calculadora, Blaise Pascal se destacou na história principalmente como matemático, físico e filósofo. Dentre suas obras, Pensamentos (Pensées, no original francês) ocupa um lugar de destaque por conter as linhas mestras que orientavam o raciocínio desse gênio. Além do mais, ela expressa de forma clara e desvelada a crença irrefutável de Pascal nos preceitos da religião cristã. E é essa mesma religião o escopo principal no qual o autor constrói e embasa seus argumentos em defesa do cristianismo.
            Para Pascal, a religião representa uma dimensão crucial da existência do ser humano. Em virtude disso ele vai na direção contrária aos libertinos, os quais negam toda a religião revelada, devendo esta ser demonstrada para ser passível de aceitação, e os céticos, que colocam tudo em dúvida. A fim de garantir a importância da religião na vida humana, Pascal parte de um preceito moralista: o homem é um ser miserável, um nada do ponto de vista do infinito universo, um tudo do ponto de vista do nada, de forma que ele é apenas um meio termo entre o nada e o tudo. No entanto, ele é incapaz de atingir a verdade já que ela é constantemente enganada pela imaginação e outras “potências enganadoras”. Daí surge o argumento da aposta de Pascal: resta ao homem apostar toda a sua esperança na existência de Deus, pois tem tudo a ganhar e, mesmo que ele não exista, nada teria a perder.
            A existência humana conserva uma grande ambiguidade: ela é o campo onde o ser humano pode experimentar pobremente as promessas do paraíso, mas é também onde o homem constantemente se deixa preencher pela vaidade. A busca por satisfação o faz perder-se em prazeres fugazes perante o enorme potencial de ser que traz consigo. No entanto, a dualidade deste ser é o ponto no qual se encontra a grandeza do homem, que o faz reconhecer a sua miséria. Se a razão é importante para conhecer e conciliar os dois extremos (tudo ou nada), por meio de algumas verdades científicas, ela pode conhecer o meio. Nisto ela é ajudada pelo coração, o qual lhe dá as intuições fundamentais sobre as quais ela constrói as suas demonstrações. Não se trata de certezas inabaláveis e sim convicções mais concretas e verdadeiras. Além do mais, a razão em si é insuficiente para permitir a fé em Deus. Esta é alcançada somente se originar por um sentimento do coração. Sendo assim, permitir a fé pela razão nada mais é do que conduzir o homem a tomar consciência de sua contradição e da impotência das filosofias, uma vez que elas afirmam e negam de tudo, e admitir que somente a religião pode fornecer as respostas satisfatórias a todos os anseios. Consequentemente, ter fé não consiste em compreender racionalmente todos os mistérios e por isso manifestar a crença neles. Antes, a fé é uma atitude de humildade, de impotência frente à complexa trama do existir, que faz com que o homem se curve reverente perante o criador.
            A obra Pensamentos não possui uma sequência didaticamente organizada. Trata-se de reflexões que foram escritas por Pascal à medida que lhe surgiam no espírito. Desta forma, os assuntos se entrelaçam sem uma sequência sistemática. Mesmo assim, é possível captar facilmente no desenvolvimento da obra a estrita defesa que Pascal faz da religião cristã, colocando-a como uma marca orientadora para que o ser humano se encontre com sua própria verdade.


REFERÊNCIA LITERÁRIA
Título:        Pensamentos
Autoria:      Blaise Pascal
Editora:      Folha de São Paulo
Ano:           2010
Local:         São Paulo
Edição:      
Série:         Coleção Folha: livro que mudaram o mundo - Vol. XV
Gênero:      Filosofia